Opinião

A sensível viagem do Papa

A sensível viagem do Papa

Daqui a um mês, o Papa estará a fechar a viagem aos Estados Unidos onde aterrará ao final do dia 22 de setembro vindo de uma visita de três dias a Cuba. Esta será uma deslocação apostólica, carregada de mensagens políticas. Porque este Papa é Jorge Bergoglio, um homem atento a um mundo em acelerada mudança. Porque o périplo o coloca numa rota cheia de reuniões diplomáticas. Porque quando, a 26 de setembro, chegar a Filadélfia para participar no Encontro Mundial das Famílias saberá que deverá deixar ali sinais de esperança para núcleos familiares que vão ganhando novas configurações.

Percorrendo o programa que o Papa cumprirá nos dias em Cuba, não se perceberá de imediato o teor político que esta jornada carrega. No entanto, basta centrar-nos nas homilias, que se realizarão, por exemplo, em praças da Revolução de Havana ou de Holguín, para antever que aquilo que Bergoglio dirá terá sempre uma leitura política, ampliada à escala global, tirando obviamente partido da expectativa que hoje se vive em Cuba, depois do reatamento das relações diplomáticas com os EUA, justamente o seu destino após a despedida de Raúl Castro.

Já em território americano, Francisco discursa no Congresso em Washington, participa numa assembleia-geral das Nações Unidas em Nova Iorque e visita uma grande prisão em Filadélfia. No cruzamento de discursos, o Papa pode até evitar falar, por exemplo, do controlo da natalidade na reforma dos cuidados de saúde que Obama está a promover, mas dificilmente conseguirá passar ao lado do seu pensamento sobre as opções que o Mundo desenvolvido vem tomando sobre a nossa casa comum, de que tanto falou na sua primeira encíclica "Laudato si". Aí, sublinharam-se as consequências do aquecimento global, salientaram-se as limitações do desenvolvimento tecnológico, defendeu-se a substituição dos combustíveis fósseis pelas energias renováveis e criticou-se inequivocamente os sistemas de comércio de emissões de carbono... Tudo questões sensíveis para os ouvidos americanos. Mas é isto que também se espera do Papa: que seja uma voz sem medo a favor de um Mundo mais equilibrado. Não será fácil em sessões cheias de protocolo e em frente de poderosos políticos falar abertamente de um posicionamento que ganhou já forma de letra.

Bergoglio está consciente de que é preciso dar voz àquilo que pensa, mas há barreiras de complexa transposição, muitas vezes erguidas no interior da própria instituição que conduz. Neste contexto, surge inevitavelmente aquele que foi escolhido para preparar esta visita pastoral aos EUA: Charles Chaput, o poderoso e nem sempre consensual arcebispo de Filadélfia.

A Arquidiocese de Filadélfia é um lugar delicado para o Vaticano. Foi ali que 60 sacerdotes abusaram de centenas de crianças durante 40 anos, foi ali que a hierarquia da Igreja tardou a chegar para afastar de funções padres acusados pela justiça. Ora, daqui a um mês, será ali que decorrerá o Encontro Mundial das Famílias. No entanto, o nome de Chaput neutraliza grande parte das expectativas que poderão rodear este encontro. É verdade que ali estarão líderes religiosos não católicos, é verdade que haverá sessões para solteiros, mas será difícil avançar para o debate da reconfiguração das famílias que é hoje uma realidade. Sabe-se que o Papa Francisco tem manifestado grande vontade em chamar, por exemplo, os recasados para uma participação mais ativa na Igreja, mas nesta viagem aos EUA Chaput não deverá promover oportunidades para essa abertura. Também não serão muito do seu agrado os encontros que o Papa manterá com o presidente dos Estados Unidos. Não há muito tempo, o atual arcebispo de Filadélfia criticou duramente a Universidade (católica) de Notre Dame, situada no estado do Indiana, por ter convidado Obama para discursar...

Não deve ser fácil para Bergoglio conviver com esta ala conservadora da Igreja, mas é a sua capacidade para construir a quadratura do círculo que mais se admira neste Papa. Espera-se, por isso, que ele seja surpreendente nesta viagem e isso terá sempre de ser feito pela sua face mais política.