Opinião

A tragédia nos media

O debate à volta da cobertura dos incêndios reacendeu-se. Desta vez, redimensionado pelas redes sociais, um espaço onde se misturam pertinentes apontamentos com impensáveis alarvidades. A questão de fundo continua por esclarecer: como mediatizar os fogos florestais? Como dar a ver essa tragédia? Por estes dias, dada a dimensão da fatalidade que se abateu sobre nós, estas perguntas foram constantes.

Os media refletem o que acontece. Em situações disruptivas, procuram também identificar as causas do sucedido e exigem soluções que restabeleçam, dentro do possível, alguma normalidade. É essa a sua função. Por isso, não se exija aos jornalistas que atenuem o choque nos relatos que constroem, que deixem de querer saber por que se chegou até ali ou que se alheiem do grau de envolvimento das entidades oficiais para resolver problemas. Os jornalistas não fazem comunicação estratégica. Fazem jornalismo. Não estão ao serviço das fontes de informação. Servem os cidadãos. São estes os vetores do seu trabalho e as orientações que aqui a ali alguns de nós aventamos muitas vezes não fazem sentido. Porque podem negar a essência desta profissão.

Falemos agora do caso da tragédia de Pedrógão Grande. Foram vários aqueles que, nas redes sociais, criticaram os jornalistas. É verdade que se cometeram erros, mas também é um facto que foram muitos aqueles que fizeram um notável trabalho jornalístico. A onda de solidariedade que hoje atravessa o país deve-se, acima de tudo, a um relato noticioso que refletiu uma tragédia que, mesmo mediatizada com tantas imagens e palavras, continua ainda no domínio do indizível. A cada reportagem, lá está uma colossal dor, uma desmedida tristeza, um enorme desalento. E isso desinquieta. E tem de desinquietar muito. Porque este real não é uma construção jornalística. É um espelho que apenas reflete uma pequeníssima parte do mundo daqueles que perderam tudo. E que, mesmo assim, têm de continuar a acreditar, como se titulava ontem na capa deste jornal.

Claro que há muitos aspetos a corrigir. Os demorados planos de chamas que galgam por dentro de povoações não estão ao serviço de uma informação credível, mas de um espetáculo inaceitável. As reiteradas entrevistas a bombeiros não servem para esclarecer nada, apenas retêm quem deveria estar a trabalhar naquilo que lhe compete. Os diretos feitos com gritos de repórteres nada esclarecem, apenas adensam um dispensável sensacionalismo. Os corpos sem vida envoltos em panos brancos não nos situam na gravidade do que acontece, apenas avolumam a morbidez que não queremos ver, porque já pressentimos há muito a tragédia. Eis aquilo que os jornalistas deveriam ponderar. Para não se repetirem os mesmos erros.

Há ainda outro ponto a reter: os comentadores. Operando num fluxo que necessita de ser alimentado em permanência, os canais televisivos de informação colocam frequentemente nos plateaux convidados que não sabem do que estão a falar. As rádios também incorrem facilmente na tentação de dar a palavra a gente com notoriedade mediática, mas sem qualquer saber sábio naquilo que se discute. Nos jornais, estes generalistas são mais escassos, porque um texto escrito exige outra preparação. E foi exatamente na imprensa que surgiu um número considerável de especialistas em fogos florestais, em questões de proteção civil, no ordenamento do território, em alterações climáticas, no tratamento da dor... Pessoas que enquadraram problemas, que contextualizaram o sucedido, que apontaram caminhos. Neste contexto, também foram emergindo os políticos onde se destacou, pelo envolvimento, o presidente da República.

Nos próximos dias, continuaremos a falar deste drama das populações afetadas pelos fogos. A partir de agora, talvez fosse melhor alterar o ângulo noticioso e procurar respostas a uma pergunta que continua em aberto: porquê? É preciso responder a isso de forma clara e apresentar soluções que travem, de uma vez por todas, esta tragédia dos incêndios florestais. E aqui os media continuarão a ter um papel central.

* PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U. MINHO