Opinião

Agarrar o tempo em tempo de Natal

Agarrar o tempo em tempo de Natal

Estamos mais impacientes, é um facto. E mais insatisfeitos. Nesta era líquida, não temos disponibilidade para nada. A agenda enche-se de coisas e esvazia-se de pessoas. Porque não há tempo. Há muito para fazer. Imersos numa realidade hiperconectada, há que responder a emails, atender telefonemas, fazer videochamadas, consultar sites de que necessitamos, espreitar redes sociais, passar os olhos pelos programas que se acumulam na box da televisão... E trabalhar. Não há margem para mais. Que o Natal seja uma oportunidade para interromper este frenesim que tomou de assalto as nossas vidas.

Todos nós vamos dando conta de que carregamos mais no acelerador do carro, caminhamos mais depressa, falamos mais rápido, despachamos mais velozmente tarefas rotineiras e poupamos conversas... Porque o dia está cada vez mais cheio. É curioso como a tecnologia ocupa progressivamente mais espaço e como isso nos subtrai disponibilidade para outras atividades. Sempre que recebo o relatório semanal do tempo despendido com o telemóvel, imobilizo-me perante os dados. É verdade que um smartphone tem muitas outras funções para além das chamadas telefónicas, mas, mesmo assim, dedicamos-lhe demasiada atenção. Se a isso adicionarmos o iPad e o computador portátil, serão intermináveis horas a olhar para periféricos móveis. A fazer o quê? A resposta poderá ser inquietante.

Na última edição do ano, o "Courrier Internacional" escolheu o tempo para tema de fundo, perguntando em capa se o tempo passa muito depressa... Passa, apesar de vivermos mais anos, de estarmos na posse de mais informação, de encurtarmos progressivamente as distâncias... Teoricamente temos condições para gerir bem as horas de que dispomos, mas na prática os nossos estilos de vida escravizam-nos. Os especialistas dizem que não estamos mais felizes. Um inquérito agora conhecido intitulado "Health Behaviour in School-aged Children" apresenta os nossos jovens cada vez mais exaustos, tristes e medicados. Isso deveria ser alvo de um debate alargado. Urgente. Porque atinge o eixo estruturante de uma sociedade: a geração que vai tomar conta do país. E que hoje se mostra desamparada.

Em parte, os especialistas ouvidos na edição do "Courrier Internacional" dão algumas respostas. Neste tempo demasiado líquido, dissipamos as nossas referências fundacionais. De tão agarrados ao presente, perdemos de vista o passado e ficamos incapazes de descobrir o futuro. Todos nós padecemos desta deriva. Os mais novos sentem-na transfigurada numa colossal angústia. Há quem aconselhe momentos de desconexão digital que permitam olhar mais devagar aquilo que está para além dos ecrãs. É um caminho. Que tem de ser aberto a partir do interior de cada um de nós.

Deixo aqui um desafio para este período natalício: que agarremos melhor o nosso tempo. Que este seja um período de paragem de um rebuliço que nos entorpece a atenção relativamente ao essencial. Que tenhamos a coragem de colocar de lado os laços dourados, os embrulhos vistosos, as mensagens padronizadas e os lugares comuns para transmitir os tradicionais votos de um Natal feliz. E que guardemos o nosso tempo para conversar devagar com a família, os amigos e os mais próximos. Com aqueles que aconchegam sempre em si o melhor de nós e são sempre o melhor porto de abrigo em tempos de desesperança. E que tenhamos também tempo de olhar devagar o céu para nele contemplar melhor certas estrelas que continuam sempre presentes nas nossas vidas, agora em forma de uma luz especial que vai iluminando caminhos mais sombrios. É deste modo que desejo que aconteça o Natal em cada leitor desta crónica.

*Prof. Associada com Agregação da UMinho