Opinião

Marcelo fará um segundo mandato?

Estávamos a 23 de abril de 2016. Passara pouco mais de um mês depois da tomada de posse. O presidente da República promovia a primeira edição do Portugal Próximo no Alentejo. Numa estufa de morangos hidropónicos de Beja, admite pela primeira vez um segundo mandato. Há dias, na visita aos lugares devastados pelo fogo de Monchique, colocou a decisão na mão de Deus. Acontece que Marcelo Rebelo de Sousa vem selando um pacto emocional com os portugueses que não pode ser quebrado ao fim de cinco anos. Todos esperam dele uma relação mais prolongada.

É na ligação próxima com os portugueses, construída através de afetos, que o atual PR assenta as fundações deste primeiro mandato. Marcelo sabe que aí encontrará a legitimidade necessária para conduzir a sua ação política por onde quiser. É para o povo que dirigirá sempre as suas prioridades, porque é a partir dele que levantará a sua marca distintiva. E como não é possível chegar a todos com igual intensidade, Marcelo Rebelo de Sousa serve-se dos média como uma espécie de átrio de poder que vai redimensionando em permanência. Ora, Marcelo não pode abandonar aqueles que cativou de um momento para o outro. É claro que terá na idade alguma limitação (nas próximas eleições presidenciais terá já 72 anos) e na conjuntura política um grande condicionamento (um Governo com maioria absoluta retirar-lhe-ia margem de manobra política), mas Marcelo gosta muito de estar em Belém. E tem uma ambição: ficar na História como um presidente ímpar. E isso só se calculará se seguir para um segundo mandato, tal como os antecessores.

Ao longo deste tempo, Marcelo tem dado sinais contraditórios. Em agosto de 2016, de visita às ilhas Selvagens, diz que tudo o que tiver para fazer será cumprido em cinco anos; em março de 2017, admite aos jornalistas que o tipo de presidência que promove é muito extenuante e apenas em setembro de 2020, olhando para a situação existente, nomeadamente a situação política nacional, decidirá em função de um dever de consciência; em junho do mesmo ano, em visita aos Açores, lembra que só se comprometeu com cinco anos; nesse mês, presidindo às comemorações do 10 de junho no Porto, escolhe o seu retrato oficial para colocar em Belém depois de dali sair; em entrevista ao "Público", a 8 de maio de 2018, declara que, se houver uma nova tragédia nos incêndios, "isso seria, só por si, impeditivo de uma recandidatura"; há dias, em Monchique, confessou estar "não mão de Deus" inspirá-lo "adequadamente" na decisão do segundo mandato.

Acontece que Marcelo tem de olhar também para o povo. Que chama para junto de si em permanência e a quem promete ser o presidente de todas as horas, incluindo as más. E esse povo não pode ser largado ao acaso no fim do primeiro mandato.

*Prof. Associada com Agregação da UMinho