Opinião

Notícias de um agosto quente

Sempre gostei de seguir os média noticiosos nos meses de verão. Soltas das chamadas fontes organizadas, as redações constroem alinhamentos alternativos e aí emerge um noticiário diversificado e inovador. Este ano, há uma agenda noticiosa algo atípica. Porque certas fontes de informação mais profissionalizadas continuam ativas.

Neste escaldante agosto, as temidas notícias sobre os fogos ainda não apareceram, depois do extenso incêndio de Monchique. Há medidas de prevenção mais apertadas e uma espécie de estado de emergência decretado ao nível da neutralização das ignições. Mesmo que tenha ido a banhos, a classe política levou o tema no centro das suas preocupações, mas, até hoje, as elevadas temperaturas não provocaram sustos, para além daquele que se propagou a sul no início do mês. Se o Ministério da Administração Interna vive um tempo mais tranquilo (interrompido por algumas manifestações de desacordo face ao processo de descentralização em curso), os ministérios da Educação, da Saúde e do Planeamento e Infraestruturas têm sido assaltados por permanentes críticas.

Com o ano letivo ainda algo distante, o semanário "Expresso" reabilitou, na sua última edição, a batalha dos professores, escolhendo para manchete o apelo da classe docente para que PCP e BE chumbem o próximo Orçamento do Estado. Neste contexto, impõe-se saber quem agendou este tema em pleno agosto, sem que nada de relevante tenha acontecido... Nos textos publicados, citam-se os líderes dos poderosos sindicatos dos professores e algumas fontes dos partidos à Esquerda. Há ainda uma parte da entrevista do primeiro-ministro publicada há duas semanas que ficou para essa edição, isolando-se aí a parte em que António Costa foi confrontado com perguntas sobre a carreira dos professores e a respetiva atualização dos salários. Curiosa construção noticiosa essa.

Também por estes dias tem havido algumas notícias do campo da saúde perspetivadas por um ângulo negativo, detetando-se um elemento transversal à maior parte das peças: declarações de elementos da Ordem dos Médicos e dos vários sindicatos dos enfermeiros. Sendo uma área de governação difícil de gerir, o Ministério da Saúde tem tido nesta legislatura uma frente ativa de oposição por parte das corporações profissionais. Que encontra nos média noticiosos amplo espaço para a contestação.

Ao nível dos transportes, salienta-se a situação na CP. Com o tema na ordem do dia imposto pelos média e pelas redes sociais, vários militantes destacados do CDS, incluindo a respetiva presidente, interromperam as férias de verão para apanhar alguns comboios e mostrar que as linhas férreas estão enterradas em problemas. O secretário de Estado que tutela o sector e o presidente da CP anteciparam-se à visita e anunciaram novos investimentos.

Em pleno mês de férias, há políticos que não descansam. Pedro Santana Lopes parece ser um deles. No passado fim de semana, anunciou através dos jornais o seu novo partido: Aliança. É certo que faltam ainda as assinaturas necessárias para se constituir legalmente, mas esta nova força partidária tem originado por estes dias várias peças noticiosas. Foi esse o objetivo deste anúncio precoce: ocupar espaço mediático. E nisso PSL tem sido bem-sucedido.

Por entre as habituais notícias criadas pelas costumeiras fontes organizadas, houve ainda espaço para um noticiário alternativo. Encontramo-lo sobretudo nas aberturas e nas secções regionais da Imprensa generalista e a meio dos alinhamentos das rádios e das televisões. Precisamos muito desse jornalismo que nos destapa inesperadas realidades a partir de textos que nos puxam para dentro de si. Sem a pressão de agendamentos externos. Se em tempo de férias as fontes profissionalizadas descansassem mais, essas peças ganhariam mais força. E os média noticiosos teriam mais interesse.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇAO DA UMINHO