Opinião

Por uma eficaz comunicação da ciência

Em Portugal, fala-se em ciência para reivindicar mais financiamento público. Raramente o campo científico é notícia para anunciar descobertas ou para adicionar outros ângulos a determinado conhecimento. Por isso, não se valoriza muito o que se desenvolve a esse nível. Eis aqui uma revolução que está por fazer, a da comunicação da ciência que se promove no nosso país. E que o ministro da Ciência, Manuel Heitor, deveria tomar rapidamente em mãos.

Quem participa em congressos científicos internacionais sabe que alguns dos nossos investigadores são uma referência mundial. Acontece que, por cá, poucos os conhecem, porque esse grupo não divulga o que produz para um público mais leigo. Não deveria ser assim. Universidades, Fundação para a Ciência e Tecnologia e outras entidades que financiam trabalhos científicos deveriam fazer constar, entre os objetivos de qualquer projeto, a obrigatoriedade de partilhar com a sociedade os resultados obtidos. São múltiplos os benefícios que daí advêm. Enunciemos alguns.

Somos um país que não valoriza a ciência. Em parte, isso acontece por desconhecermos aquilo que se faz e, principalmente, por não estarmos familiarizados com os rostos daqueles que trabalham em prol do desenvolvimento do nosso país. A ciência tem de estar mais próxima de todos, sobretudo dos públicos mais jovens. É preciso despertar nos mais novos o gosto pela inovação e pela descoberta. Precisamos também de puxar mais os cientistas para o centro do espaço público (mediático) que hoje se mostra cada vez mais rarefeito. O nosso país construiu, através dos média noticiosos, um pensamento dominante que se declina através de duas classes: políticos e jornalistas. Não podemos debater o país e o Mundo apertados em visões de apenas dois grupos sociais. Necessitamos de interlocutores que adicionem um "saber sábio" sobre acontecimentos que são anunciados em breves peças, mas que arrastam consigo uma enorme complexidade que é imperioso descodificar.

Façamos um exercício simples: analisemos as fontes das notícias sobre ciência publicadas nos jornais generalistas portugueses. Algumas conclusões serão rapidamente salientadas. Em Portugal, o grupo de cientistas portuguesas que se constitui como notícia é reduzido e as revistas científicas não apresentam qualquer estratégia de comunicação. A nível internacional, ainda que haja uma natural dispersão de fontes de traço humano, as principais publicações da especialidade têm uma política de comunicação média bem pensada e, consequentemente, muito eficaz. Impressiona o agendamento noticioso que determinadas revistas alcançam em vários países e isso acontece porque os respetivos centros de investigação contam com assessorias de Imprensa profissionais, mas também porque os próprios cientistas são treinados para falar com os jornalistas. Percebe-se bem isso através dos textos publicados. É isso que nos falta: saber comunicar bem a ciência que fazemos.

É claro que também podemos aqui acrescentar que, dentro de portas, nos debatemos por algum desinteresse dos média em relação a estes domínios. É verdade. A agenda mediática tende a atirar para as margens o agendamento de qualquer tema científico e tecnológico, principalmente quando desenvolvido no nosso país. Porque os encara como algo hermético, não acreditando que haja pessoas capazes de desconstruir com eficácia aquilo que é feito.

Entre uma comunidade científica que não valoriza a comunicação e um campo mediático que não manifesta muito interessa pela ciência, a realidade ficará a meio de caminho. Alguém tem de iniciar a marcha. Fica aqui o repto ao ministro da Ciência: motivar os cientistas portugueses a comunicar melhor o que fazem, encontrando aí uma forma de devolver o muito que a sociedade neles investe.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U. MINHO