Praça da Liberdade

Renovar a CP

A CP vive, de novo, uma crise que está a fazer periclitar a atual administração. Quem viaja regularmente de comboio conhece há muito os problemas estruturais da empresa e as limitações de conjuntura que atravessou. Que o tempo não tem resolvido. É certo que revolucionar os caminhos de ferro portugueses exige muito dinheiro, mas há alterações que não implicam grande investimento. Apenas conhecimento de experiência feito.

Dois assuntos puxaram, nas últimas semanas, a CP para o topo da atualidade noticiosa: primeiro, foi a supressão de comboios nas linhas de Cascais, Sintra, Oeste e Algarve; depois, nos dias mais quentes do ano, registaram-se disfuncionalidades no ar condicionado dos alfas pendulares que ligam Lisboa ao Porto. Acontece que os problemas estão longe de se circunscrever a estas duas situações. A empresa ressente-se de um longo período de desinvestimento financeiro e tem sido vítima de sucessivos administradores que se mostram incapazes de fazer a reforma que se impõe. No entanto, há medidas que não exigem muito dinheiro e que contribuiriam para um significativo aumento da qualidade do serviço prestado. Enunciemos aqui algumas.

Ajustamento dos horários de ligação das linhas. Quem chega ao Porto vindo de Lisboa num Alfa Pendular ou num Intercidades dispõe frequentemente de 10 minutos para passar para um comboio urbano. Ora, como os atrasos das viagens de longo curso são quase sempre significativos e como as linhas de chegada e partida se situam muitas vezes em sítios opostos, perder a ligação torna-se a regra e não a exceção.

Serviço de cafetaria. Ainda que ao longo dos anos os bares dos comboios tenham sido alvo de sucessivas renovações, o serviço prestado é mau. Não há variedade de alimentos e aqueles que existem são péssimos. Em viagens mais longas, quem opta por fazer refeições nas carruagens costuma arrepender-se de tal opção.

Voz off das carruagens. Em viagens de longa duração, um funcionário anuncia por altifalante interno a chegada a determinada estação. Fazendo regularmente a ligação entre Braga e Lisboa há mais de 25 anos, não noto evolução na forma como se comunica isso. Há dias, vi-me no forçado papel de tradutora para inglês daquilo que era dito, porque o grupo de japoneses que seguia comigo na mesma carruagem sentia-se completamente perdido no avanço da viagem para norte. Numa altura em que cresce o número de turistas no nosso país, não seria já tempo de apresentar este serviço em português e em inglês? Aproveitando essa evolução, talvez fosse igualmente útil promover uma formação ao nível do bom uso da nossa língua.

Limpeza das carruagens. Aqueles que optam pela primeira classe dos Alfa ou dos Intercidades desconhece o estado de higiene de determinadas carruagens de segunda classe. Em início de viagem, os respetivos utentes encontram com frequência os assentos sujos, os caixotes de lixo dos seus lugares por despejar e o chão com restos de comida da viagem anterior. Poder-se-ia aqui ainda falar do cheiro, mas dispensa-se essa descrição.

Incentivar a leitura e promover a qualidade de consumos audiovisuais. Quem viaja em primeira classe em Alfa Pendular é mimado com um jornal ou revista. Se os títulos disponíveis são restritos, a diversidade termina quando o carrinho com essas publicações passa para a segunda carruagem... Não faz sentido. Também os serviços audiovisuais necessitam de outra atenção. Para além da péssima qualidade da imagem, os programas escolhidos são inapropriados. Ninguém segue longas entrevistas ou debates agarrados a uma atualidade que já passou.

Com os incêndios no topo dos alinhamentos, a atualidade em torno na CP arrefeceu. No entanto, convém não esquecer que há uma revolução para fazer.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO