Opinião

Amparar os mais frágeis. Já!

Amparar os mais frágeis. Já!

Por estes dias, todos nos sentimos desamparados. Custa muito falar daqueles que morreram no meio de incêndios, procurando salvar os seus bens e as suas vidas. Custa muito olhar para certas imagens e ver aí refletido um país devastado ou rostos marcados por um profundo sofrimento. Custa. Muito. Por isso, nestas próximas semanas, aquilo que se exige da classe política é ação. Efetiva. Célere. Comprometida. É necessário reconstruir casas, ajudar financeiramente as pessoas afetadas e ampará-las permanentemente na dor. Tudo importa para mitigar um sofrimento incomensurável.

No início da semana, a agenda jornalística centrou-se na ministra da Administração Interna. Constança Urbano de Sousa deveria ter percebido mais cedo que a sua demissão se impunha. Embora tal opção não se constituísse como a chave miraculosa deste gravíssimo problema do combate aos incêndios, o seu afastamento representaria um gesto simbólico de uma mudança de rumo de sucessivas políticas que falharam onde seria impensável: na defesa de vidas humanas. Urbano de Sousa foi, finalmente, embora, mas os problemas continuam. Por isso, os trabalhos de Eduardo Cabrita serão gigantescos. Porque as reformas a fazer terão de ser de fundo, porque as decisões a tomar agitarão interesses instalados há muitos anos, porque o impacto das políticas a pôr em marcha far-se-á sentir a longo prazo. Não será fácil inverter o rumo, mas também não há uma terceira via por onde se possa seguir.

É compreensível que este Governo esteja agora debaixo de fogo, porque se encontra em funções e, por isso, tem a obrigação de prestar contas ao país. Mas isso não significa que a Oposição esteja imune a críticas. O atual caos resulta de muitos anos de políticas erráticas e de governantes sem coragem para se centrarem no essencial. Por isso, no Parlamento, também nenhuma bancada merece aplausos. Mas o tempo não é de discussão acerca de quem fez mais pela destruição da nossa floresta e quem fez menos pela proteção de populações completamente vulneráveis. O tempo é de agir. Sem meias-palavras.

Há dois imperativos em que o novo ministro da Administração Interna não pode negligenciar: ninguém deverá mais morrer no meio dos incêndios e todas as vítimas dos fogos têm de ser ajudadas. Já.

Vamos, então, aos factos: neste momento há pessoas sem casa, sem emprego, sem meios de subsistência, sem ânimo emocional para recomeçar com determinação as suas vidas; há crianças sem condições para estudar e idosos sem assistência para assegurar uma saúde agora ainda mais fragilizada. O Estado tem aqui a enorme responsabilidade de reabilitar pessoas e lugares. E, desta vez, não pode colapsar. Que ninguém arrisque promover a reconstrução de casas através de projetos de difícil execução, que ninguém se tente em gerir contas de solidariedade cujo dinheiro não chegue rapidamente a quem precise, que ninguém ouse fazer demagogia com o sofrimento dos outros. Ninguém está com paciência para nada disso.

O inverno está a chegar e poderá ser severo. Isso implica um cuidado acrescido com estas frágeis populações. Não necessitamos apenas de discursos e de gestos empáticos. Precisamos, acima de tudo, de quem, no terreno, restabeleça a normalidade possível, para que se torne possível retomar um quotidiano sob o qual pesará sempre a sombra dos muitos que partiram e que deveriam estar entre nós. Isso não se apagará. E ainda bem que assim é. Porque a memória das vítimas mortais tem de se perpetuar na exigência de políticas responsáveis, que coloquem o bem comum à frente de qualquer interesse corporativo ou económico.

A hora é de mobilização absoluta. Mobilização de políticas que fixem a resiliência da floresta e o combate aos fogos como prioridades nacionais. Mobilização de políticos que façam do amparo das populações afetadas um desígnio de um Estado social que não se demite das suas funções de proteção em diversos campos. Mobilização de cidadãos que se unam em torno da exigência de ações que promovam a preservação do território e da vida das pessoas que o habitam.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO