Opinião

As enfadonhas rentrées

As enfadonhas rentrées

Com o agosto a fazer escorregar a segunda quinzena, os partidos políticos preparam as suas rentrées. No passado domingo, o PSD fez a sua festa do Pontal que, à semelhança dos últimos anos, decorreu na Quarteira. Neste carrossel político há muito consumido pelo tempo, resiste a Festa do Avante que apresentará agora a sua 40ª edição. A festa dos comunistas segue um formato conhecido, que tem consolidado a marca. Porque é genuína. Esse é um traço inexistente em qualquer outra rentrée.

A festa do Pontal faz-se há 40 anos. Não nos apercebemos deste aniversário, porque a iniciativa perdeu força e brilho. Longe, muito longe, parece estar aquele verão de 1976, quando Sá Carneiro se lembrou de criar um evento no Algarve e a festa haveria de acontecer em tons populares no último domingo de agosto. Eis uma forma original de assinalar a reabertura do ano político: a sul, reunindo num pinhal, o do Pontal, o maior número de pessoas para ali passar umas horas animadas com música e boa comida, salpicadas com um bem condimentado discurso político. A festa social-democrata ganharia influência nacional em finais dos anos 80 e nos primeiros anos da década 90. Ajudou o partido ter "um homem do leme" (expressão cunhada neste evento de verão) que acumulava o lugar de primeiro-ministro e se apresentava como algarvio. A cobertura televisiva também redimensionou o evento. Sendo de tal forma marcantes, as rentrées instituíram-se como grandes eventos de verão a tal ponto que, a 31 de agosto de 1995, a SIC promoveu, no Centro Cultural de Belém, a "Festa da Democracia" para assinalar, de forma grandiosa, a reabertura do ano político após as férias de verão. Os políticos aderiram em peso e as audiências ficaram sintonizadas aí.

Todavia, o século virou, o país mudou radicalmente, mas os velhos políticos continuam a insistir em vetustos formatos. O modelo Pontal morreu. Até o próprio líder do PSD terá sentido isso, pela dificuldade em construir um discurso inflamado, com a vivacidade necessária para puxar por um público que, segundo os relatos da Imprensa, se mostrava demasiado amorfo. Poder-se-ia dizer que tal insucesso resulta do facto de o PSD não estar no Governo, de Passos Coelho ter sido incapaz de improvisar uma intervenção mais acutilante ou de a festa ter acontecido a meio de agosto, muito longe do espírito do recomeço que estes eventos querem promover. Está tudo certo, mas também é preciso perceber que é urgente criar uma outra forma de assinalar o fim das férias políticas (isso ainda existe?).

PS, CDS e Bloco de Esquerda deveriam olhar com atenção para o que aconteceu no domingo na Quarteira. Poder-se-á dizer que estamos perante um pseudoacontecimento, ou seja, um evento promovido em função da respetiva cobertura mediática, mas tal pretensão desmorona-se quando se repara que a ampla mediatização se fez com notícias de ângulos negativos e com vários comentários de registo jocoso.

Com um cunho singular, a Festa do Avante comemora os seus 40 anos e isso deverá ser notório para os lados do Seixal onde os comunistas prometem grande animação e muito debate político. Por estes dias, na Quinta da Atalaia, que este ano vai crescer em metros quadrados, haverá muitos militantes a montar o evento. É esta a chave do sucesso. A Festa do Avante faz-se de forma coletiva. Não há muito investimento em empresas de organização de eventos ou em agências de comunicação. Esta Festa, sendo dos comunistas, tem dado lições de abertura, atraindo públicos mais alargados. É uma marca que se consolida com o tempo. Porque é autêntica e, por isso, vai sendo cada vez mais robusta. É uma exceção que os outros partidos deveriam tornar parte de uma regra. Porque precisamos de eventos que aproximem os cidadãos da política.

Faltam poucos dias para os restantes políticos apresentarem as suas rentrées. Ainda há algum tempo para fazer um evento diferente. De modelos gastos, os cidadãos não se aproximam, nem os jornalistas conseguem deles construírem relatos positivos. Quem inovar aqui irá sempre à frente.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO