Opinião

As escolas de verão dos partidos

As escolas de verão dos partidos

Vêm aí as universidades de verão ou as escolas de formação de quadros. Não importa muito a designação. Interessa o propósito destas iniciativas. No espaço público, assumem-se como pseudoacontecimentos, ou seja, acontecimentos ao serviço da cobertura mediática, mas está aí o embrião de uma boa ideia. Perante o atual desinteresse dos jovens pela política, os partidos deveriam desenvolver eventos desta natureza ao longo do ano. Que puxassem os jovens para o debate político.

Nos próximos dias, vamos ter várias notícias de Castelo de Vide onde tradicionalmente decorre a Universidade de Verão do PSD. É abusiva a designação. O programa apresentado e o formato das conferências não corresponderão propriamente àquilo que é uma universidade, ainda que se fale aqui de um curso de verão. Todavia, vamos remeter este deslize conceptual para o universo dos pormenores. É muito positivo reunir um conjunto de jovens, durante uma semana, em torno de um conjunto de conferências proferidas por personalidades com conhecimento de causa, incentivando-os, em determinados momentos, a pensar em grupo certas temáticas. É claro que poderíamos dizer que os partidos não deveriam ceder à tentação de integrar os "seus" no programa. Olhando para a Universidade de Verão do PSD, a abertura inclui o presidente da JSD e o primeiro vice-presidente do PSD, no jantar desse dia os jovens vão ouvir o presidente do PSD Açores e, no dia seguinte, começam os trabalhos com Maria Luís Albuquerque. Pelo meio, encontrarão vários palestrantes do partido. O curso fechará com o presidente do partido que falará à hora dos noticiários do almoço. É excessivo.

Torna-se óbvio que os partidos procuram com estas iniciativas capitalizar espaço mediático para marcar a sua agenda. Trata-se aqui daquilo a que Daniel Boorstin chamou pseudoacontecimento, ajudando as teorias do jornalismo a repensar a natureza de certos atos promovidos por fontes cada vez mais sofisticadas. Saídos de um agosto parco em factos políticos, os jornalistas aderem a estes eventos que prometem declarações que facilmente suscitam reações dos restantes partidos. Há, portanto, um indiscutível interesse jornalístico. A fórmula é simples, mas eficaz. Porque quem promove a iniciativa controla facilmente aquilo que aí é dito. Não é por acaso que se constrói um programa maioritariamente dominado por militantes do próprio partido... No CDS, a escola de quadros que, este ano, decorre em Peniche, não difere muito deste espírito e nos outros partidos nunca houve um projeto que fizesse caminho. Um caminho contínuo, inovador e que contribuísse para uma verdadeira formação política dos jovens portugueses.

Qualquer inquérito que procure apurar o tipo de relação dos portugueses com a política reflete um colossal afastamento destes relativamente ao exercício político e esse desinteresse acentua-se drasticamente entre os mais novos. Os partidos deveriam olhar com atenção para esses dados e procurar inverter esta preocupante tendência a partir do seu interior.

Mais do que promover uma semana de verão, as universidades ou escolas dos partidos poderiam criar várias réplicas disso ao longo do ano. Mais permanentes, mais participativas, mais diversificadas, mais inovadoras. Poder-se-á dizer que as juventudes partidárias constituem lugares de formação política. Até certo ponto, isso é verdade. Todavia, persiste a ideia de que essas estruturas são demasiado fechadas e vergadas a lógicas de poder avessas a quem não é filiado. Seria saudável que os partidos saíssem do perímetro das suas sedes e promovessem outros polos de debate político, chamando mais pessoas descomprometidas com o cartão de militante, sobretudo jovens. É urgente e necessário debater o país que estamos a construir e isso demanda uma participação alargada. Com jovens de diferentes idades, de origens geográficas distintas e oriundos de meios diversificados. E já agora orientados por pessoas que não estivessem aí ao serviço de uma notícia nos média.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO