Opinião

Às voltas com a campanha

Às voltas com a campanha

A coligação PSD/CDS ainda não acelerou para a campanha eleitoral. Não precisa. Os ministros e secretários de Estado estão na estrada a propagandear o lado positivo da sua governação. O PS não abandonou o terreno, mas por estes dias nada tem corrido bem. Os líderes dos partidos mais à esquerda estarão a banhos. A partir deste fim de semana, todos vão reaparecer com mais força. Convém que, entre o habitual folclore, se vá discutindo o futuro do país e das pessoas.

Amanhã, a atenção mediática concentra-se naquela que é conhecida como a festa do Pontal que, este ano, junta Pedro Passos Coelho e Paulo Portas. Todos vão fazer de conta que são muito amigos, mas, neste casamento de conveniência, são bem notórias as tensões. Portas, que não anda muito satisfeito com a eventual exclusão dos debates televisivos, tem de aproveitar bem os diretos dos canais de informação. É preciso ganhar espaço mediático. Nem que, para isso, seja necessário meter no bolso convicções antigas como aquelas que, nos anos 90, o jornalista Paulo Portas apresentava quando criticava a cobertura televisiva que então se fazia da rentrée social-democrata. Em agosto de 1993, Portas escrevia n"O Independente que "não faz parte de qualquer critério racional de informação passar minutos e minutos de conversa geral e repetitiva em vez de escolher o essencial e novo". Hoje, o presidente do CDS não pensa assim. A política tem destas coisas, ajuda as pessoas a mudarem rapidamente de posição. No ano passado, Passos Coelho aproveitou a festa laranja para desafiar o PS a fazer a reforma da Segurança Social. Este ano, numa rentrée pintada também em tons de azul, ninguém irá perder tempo com essas retóricas. É preciso convencer quem está no Algarve e quem recebe a mensagem através dos media que quem dali fala salvou o país de uma crise criada pelo PS e que agora o caminho se faz em direção contrária à da austeridade. O discurso é conhecido, mas é preciso repeti-lo. Passos é persistente. Portas, convincente.

Depois de uma semana em que inverosímeis cartazes sobre o desemprego e emigração atormentaram António Costa, o PS propõe-se colocar em marcha outra estratégia para a campanha eleitoral. É verdade que a propaganda eleitoral, quando mal pensada, constitui-se como um enorme ruído que pode subtrair uma massa importante de votos flutuantes. No entanto, um bom marketing, por si, não faz milagre, se os dirigentes políticos não colaborarem. Ora, aqui está o ponto a partir do qual os socialistas devem repensar tudo. Há que reagir mais rapidamente sobre aquilo que vai acontecendo. É fundamental trazer para o espaço público questões de fundo que coloquem em causa os últimos anos de governação. Costa precisa de estar mais na primeira linha e necessita que aqueles que escolheu nos vários círculos eleitorais sejam mais proativos e falem apenas das legislativas. Todos serão poucos para combater intenções de voto que se movimentam no sentido da coligação de direita.

A polémica à volta dos cartazes do PS não deve suscitar uma fuga para a frente dos socialistas, nem tão-pouco dão grande espaço aos restantes partidos para rasgados sorrisos sarcásticos de quem vê o inimigo cair das próprias armadilhas. Antes devem impor uma reflexão séria à volta do poder das redes sociais. Foi aí que os controversos outdoors foram completamente despedaçados. Isso significa que esta campanha eleitoral deve olhar para o espaço virtual com o mesmo cuidado que manifesta em relação à informação jornalística dos media tradicionais. Hoje os cidadãos têm um grande poder e isso não deve ser minimizado.

Nesta altura, enquanto os principais responsáveis políticos fazem o seu aquecimento para a campanha eleitoral, espera-se, pelo menos, que as máquinas partidárias estejam em velocidade cruzeiro na preparação dos bastidores, descobrindo novas formas de fazer passar a caravana eleitoral pelo chamado país real, repensando os formatos dos comícios, alinhavando o modo como gerir a relação com os jornalistas e arquitetando uma estratégia nacional para os sites, blogues e redes sociais. Sem isso, não se avançará nada.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO