Opinião

Brexit?

A menos de dois meses do referendo no Reino Unido sobre a permanência na União Europeia, as divisões acentuam-se. Em termos político-partidários, ressalta uma guerra aberta no interior do partido conservador contra e a favor do Brexit. Os média britânicos vão exacerbando os dois lados.

É no palco mediático que a campanha deste referendo tem sido mais interessante. Com uma política editorial que, em tempo de eleições, costuma colocar-se ao lado de uma das fações a votos, os meios de comunicação do Reino Unido vão sendo um dos principais atores desta campanha. No dia em que Barack Obama aterrava em Londres, a conservadora revista "The Spectator" apresentava em capa o presidente dos Estados Unidos como um rei ao lado do título "O grande fingidor". No interior, escrevia-se que há um entendimento internacional para que líderes mundiais não visitem países em tempo de campanha, mas acrescentava-se que "tais convenções foram projetadas para simples mortais. Obama não tem escrúpulos e o primeiro-ministro não tem vergonha". O presidente dos Estados Unidos também escolhia a Imprensa como arma de ataque. No dia seguinte à sua chegada, publicava um texto de opinião no eurocético "The Daily Telegraph" para acentuar aquilo que o editor de política do jornal "The Times" considera ter sido "a detonação de um dispositivo nuclear". E eis como os média conquistam o papel de ator político.

Dias antes, o mayor de Londres usara o mesmo jornal (onde, aliás, é colunista) para escrever outro artigo de opinião que ressaltava as vantagens da saída do Reino Unido da UE. O conservador Boris Johnson é o rosto mais visível da campanha pelo Brexit, sendo já quase certo que conquistará o lugar de primeiro-ministro caso o referendo imponha a saída dos britânicos da Europa. Começando por afirmar-se europeu e lembrando que viveu muitos anos em Bruxelas (onde foi correspondente do "The Daily Telegraph"), Johnson sublinha que é preciso distinguir a Europa do projeto político europeu que, com os anos, foi sendo desvirtuado até se tornar hoje irreconhecível e penalizador em relação a um Reino Unido que, face ao crescimento do número de países que integra a UE, tem sido atirado cada vez mais para as margens das decisões. Falando de uma profunda e prejudicial colonização jurídica, o energético mayor de Londres advoga que a perda de soberania do país urge ser rapidamente combatida, acrescentando aos seus argumentos uma variável de peso: a imigração. Defende-se que a saída da UE protegeria o Reino Unido de uma vaga de imigrantes que se considera lesiva do bem-estar dos britânicos. É também este o argumento do ministro da Justiça que recentemente escreveu um artigo no "The Times", alertando para o facto de a imigração criar "milhões de novos europeus". Na política, os inimigos estão também dentro da própria casa.

David Cameron não precisa de se preocupar com o UKIP nem com os ataques do respetivo líder Nigel Farage. Os maiores inimigos da sua posição pró-Europa estão no seu partido e sete deles ocupam pastas do seu Executivo. Mas há ajudas que poderão ser inesperadas. Não a de Barack Obama. Nem mesmo a dos relatórios da OCDE. Cameron certamente não contaria com o apoio de Yanis Varoufakis. Esse mesmo, o que se demitiu da importante pasta das finanças na Grécia por não conseguir qualquer entendimento com as instâncias europeias.

Num artigo publicado no jornal "The Guardian", o ex-ministro grego afirma que a UE se afundará, se os britânicos a abandonarem, abrindo portas a extremismos xenófobos e nacionalistas. Defende-se que, em nenhum caso, a UE poderá pôr em causa a soberania de um país, qualquer que seja a sua dimensão. "Se somos um Estado-membro, deveremos refletir nas consequências de uma saída. Que nos agrade ou não, a UE é parte integrante de nós", escreve. Claro que há sempre vários caminhos a seguir. Varoufakis coloca três possibilidades: a submissão às decisões dos tecnocratas europeus, a saída da UE e a permanência numa União Europeia que procura formar uma aliança transfronteiriça de democratas. O ex-ministro das Finanças defende a terceira via. Cameron poderá usar este argumento. Quem diria que ambos se poderiam tornar bons aliados...