Opinião

Cada vez mais desunidos

Cada vez mais desunidos

Acionado o artigo 50 do Tratado de Lisboa, o Reino Unido prepara-se para dizer adeus à União Europeia. Sem retrocesso, como frisou a primeira-ministra britânica. Adivinham-se negociações duras numa altura em que a França também pode fazer tremer as alianças europeias. Ou mesmo derrubá-las.

A mensagem a passar é clara: o Reino Unido sai da União Europeia, mas continua a pertencer à Europa. Foi essa ideia que Theresa May procurou impor ontem num artigo que publicou em sete jornais europeus (os periódicos portugueses foram excluídos...). Nele, assume-se a defesa dos cidadãos europeus que vivem no Reino Unido, procurando-se fixar uma posição inequívoca na política externa que convém apaziguar nestes tempos de árduas negociações. Para consumo interno, a governante, numa entrevista à BBC, esforçou-se por anunciar que não há qualquer garantia de que a imigração diminua depois do Brexit. Theresa May sabe que qualquer acordo com os parceiros europeus suscitará sempre uma forte crítica interna e aí a imigração é uma das variáveis mais sensíveis. Há, pois, que acautelar o que dificilmente se poderá fazer a curto prazo, mas que corresponde a uma ação política a concretizar no futuro. O que o discurso constrói, a realidade não reflete. Infelizmente.

Em tempos de despedida, não se pense que o tom é festivo. Pelo contrário. Donald Tusk frisou bem isso, quando recebeu do representante britânico na UE a carta de May a lançar o processo de saída da UE. Também dentro de fronteiras, se sente alguma tensão. Na edição de ontem, a revista "NewStatesman" escrevia que "os vencedores do Brexit não são viciados em independência, mas em ódio". A crítica é vigorosa. No mesmo texto, perguntava-se quem representará os 48 por cento dos britânicos que, no referendo do passado mês de junho, se manifestaram a favor da permanência na União Europeia. A resposta ficou por dar face à atual deriva que, na leitura desta publicação, caracteriza hoje a oposição ao atual Governo conservador.

Fazendo capa com aquilo a que chama "Nova Europa", a revista "The Spectator", que, neste tempo, mais se posicionou a favor do Brexit, anuncia uma nova Europa, mas, ao percorrer os textos que aí se publicam, não se sente uma grande confiança no futuro. Os perigos multiplicam-se e um dos principais receios vem do outro lado do canal da Mancha. "Uma presidência Le Pen paralisaria a Europa", escreve-se, argumentando que, com a Frente Nacional no poder, não haverá ninguém para negociar na UE. E isso teria duros reflexos no Reino Unido. Todavia, ainda que os média franceses estejam a fazer um gigantesco esforço para afastar essa possibilidade, as sondagens vêm revelando uma clara preferência dos eleitores por esta candidatura, podendo dar-lhe uma vitória na primeira volta. É certo que, na segunda volta, todas as previsões apontam para um triunfo de Emmanuel Macron, mas isso não significa que tudo fique igual. Macron não é um seguidor do presidente Hollande, nem tão pouco deve fidelidades aos partidos tradicionais. A sua posição na família europeia é uma incógnita e isso pode não ser uma boa notícia.

Nesta equação, há ainda uma parcela determinante: a Alemanha. Também aí se vive um clima eleitoral de desfecho imprevisível. É verdade que a Alternativa para a Alemanha (AfD) não se revela ameaçadora, mas também ninguém garante a vitória a Angela Merkel. Nas últimas semanas, o seu opositor Martin Schulz tem ganho terreno e uma eventual liderança sua no Governo alemão terá inevitavelmente consequências naquelas que têm sido as opções da Alemanha na União Europeia.

É de profundas dúvidas quanto ao seu futuro político que hoje se tece o fundo que sustenta a UE. Esta comunidade, que há 60 anos se fundava sob a convicção no desenvolvimento em conjunto, há muito que se pulverizou. E, nesta hora de despedida do Reino Unido, é impossível não reter as ameaças veladas de Theresa May: se o Reino Unido não conseguir um acordo satisfatório com a UE, as trocas comerciais passam a reger-se pelas regras da Organização Mundial do Comércio e, em matéria de segurança, a cooperação na luta contra o crime e terrorismo sairia enfraquecida. Todos percebemos a mensagem. Perigosa.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO