Opinião

Caminhos de Fátima

Celebra-se, na próxima quarta-feira, o 13 de maio. Nesta altura, pelas estradas portugueses, rumam para o santuário mariano centenas de peregrinos. Em perigo permanente. A par da fé que os crentes assinalam por estes dias, responsáveis políticos e eclesiásticos deveriam unir-se para pensar um projeto que afastasse os caminhantes das bermas de vias rodoviárias cheias de carros que excedem limites de velocidade numa condução de alto risco. Para que não morram mais pessoas a caminhar para Fátima.

Na passada segunda-feira, José Mendes escrevia, na sua coluna de opinião deste jornal, que era urgente ter aqui como referência Santiago de Compostela que formalizou uma rede de caminhos fora da estrada, colocando os caminhantes numa rota segura e, simultaneamente, criando com isso um importantíssimo produto turístico internacional. Então, nós não fazemos nada? Choramos os mortos e esperamos outra tragédia? Construir os Caminhos de Fátima implica um grande envolvimento da Igreja e uma genuína vontade política. Estranhamente não se consegue ver de nenhum dos lados sinais para resolver esta situação. E isso é chocante.

Por estes dias, olhamos para os políticos e encontramo-los numa acesa e inútil discussão sobre SMS. Não houve ninguém que se empenhasse em colocar Fátima no debate público. Porque é um assunto estranho à esquerda, dir-se-á. Porque a direita não quer confundir-se com credos religiosos, será outro dos argumentos a atirar. Acontece que a morte de pessoas nas estradas portugueses não é apenas uma questão de fé. É, acima de tudo, um assunto de segurança rodoviária. E os políticos dever-se-iam interessar por isso. Governo, partidos políticos, autarquias e, por extensão, comissões de coordenação. Todos estes atores são responsáveis pelas mortes dos peregrinos nas estradas portuguesas, se continuarem a fazer de conta que isso não lhes diz respeito. Diz sim, e muito!

Claro que a Igreja também tem aqui enormes responsabilidades. Até à próxima quarta-feira, muitos responsáveis eclesiásticos vão constituir-se como fontes de informação para os média, falando da fé que move milhares de pessoas até Fátima. Seria também aconselhável confrontar o clero com aquilo que (não) está a fazer para garantir a segurança a quem caminha para o mais importante santuário português. A Igreja não pode silenciar o que está a acontecer e ela própria deve contribuir energicamente para construir rotas alternativas de peregrinação, sob pena de ser conivente com as mortes que tanto lamenta.

Construir novos caminhos para Fátima não é tarefa fácil. Há que criar uma equipa para desenvolver um projeto consistente, cativar financiamento (o dinheiro do Portugal 2020 poderá ser aqui uma importante âncora), enfrentar os enormes lóbis que se escondem por detrás das peregrinações (levar peregrinos pelas estradas nacionais constitui para muitos um bom negócio) e fazer uma pedagogia junto dos caminhantes para que adotem rotas alternativas (as paróquias poderão aqui ter uma função vital).

Não sendo uma empreitada simples, é certamente urgente e isso poderá também constituir-se como uma importante marca turística para o nosso país que tem na religião uma grande centralidade. À semelhança do que acontece com os Caminhos de Santiago. Em Portugal, o turismo religioso precisa de ganhar mais vitalidade, mais dinâmica, mais atratividade.

Os novos Caminhos de Fátima poderiam também ajudar alguns portugueses a reconciliarem-se com o catolicismo. Numa altura em que a Igreja se debate com uma profunda crise de fé dos seus fiéis, a construção de outras rotas para Fátima criaria certamente um novo elã à volta do santuário mariano, cativando pessoas que entretanto se afastaram ou que nunca tiveram motivação para lá ir.

Um povo em peregrinação para Fátima não pode ser constituído por romeiros que marcham em bermas de estrada a poucos metros de carros em alta velocidade. Um povo em peregrinação para Fátima tem de ser constituído por peregrinos que abrem caminho em rotas seguras. Isso deveria ser uma prioridade absoluta para todos nós.