Opinião

Como educar para a saúde?

Como educar para a saúde?

O Ministério da Educação colocou em consulta pública o referencial da Educação para a saúde. É um texto bem estruturado, mas não imune a desacertos, como o de integrar o tema da interrupção voluntária da gravidez na educação sexual do 2º Ciclo. No entanto, o maior problema é saber quem vai concretizar as intenções que aí são inscritas. Sem formação, os professores não fazem milagres.

É um documento extenso, mas de fácil leitura. Logo a abrir, enunciam-se cinco macrotemas: saúde mental e prevenção da violência, educação alimentar, atividade física, comportamentos aditivos e dependências e, por fim, afetos e educação para a sexualidade. Foi este último tópico, aliás, que criou mais noticiabilidade e deu origem a uma petição que contesta a introdução do tema da interrupção voluntária da gravidez no 5.º e 6.º anos de escolaridade. As questões levantadas são pertinentes. De facto, como se escreve, "não há nenhuma necessidade educativa subjacente à apresentação do conceito de aborto e das técnicas abortivas a crianças de tenra idade". Existe mais vida para discutir antes de aí chegar, poder-se-ia acrescentar.

No entanto, ainda que as notícias tenham colocado o texto sob um registo negativo devido a uma infeliz alínea que integra, há que reconhecer a importância deste referencial com mais de 80 páginas. E um dos méritos é, decerto, o de esticar as boas práticas que fixa até ao ensino pré-escolar. É aí que se torna necessário criar traços de identidade, estabelecer sentidos de pertença, explorar a comunicação, aprender a expressar emoções, fomentar a autonomia, valorizar e proteger o meio ambiente... A primeira vez que ouvi o meu filho de 4 anos falar de reciclagem foi, um dia, quando o trazia da escola para casa. Contou-me que a educadora levara a turma até aos caixotes de separação do lixo para que todas as crianças soubessem identificar as cores distintivas de cada material a reciclar. E lá veio ele, pelo caminho, a falar da sua vontade em fazer isso em casa. Aí estava um ensinamento convertido num comportamento que se vai consolidando logo a partir dos primeiros anos...

Percorrendo os inúmeros objetivos enunciados neste documento, há uma pergunta que se impõe: quem vai ensinar isso às nossas crianças? Em que áreas curriculares esses tópicos devem ser introduzidos? E como serão desenvolvidos ao longo dos ciclos? Há, na verdade, uma planificação prévia a fazer a vários níveis, um dos quais será inevitavelmente o da formação dos professores. Seria fantástico se as crianças e os jovens aprendessem a negociar situações de conflito, a demonstrar capacidade de autovalorização, a construir respostas positivas em situações de violência e a ter resiliência. Acontece que, ao longo da sua formação, muitos docentes não foram treinados para ensinar tais competências. E tal limitação constitui um colossal obstáculo à concretização deste bem-intencionado referencial. Que o Ministério da Educação não pode ignorar.

Claro que ninguém poderá, subitamente, neutralizar problemas que paralisam as nossas escolas há décadas. Mas há ajustamentos que poderiam ser feitos. Por exemplo, harmonizar as formações de curta duração dos professores com os renovados objetivos que se pretendem concretizar em diferentes graus de ensino ou então integrar algum tempo das licenças sabáticas dos professores universitários em projetos de atualização de conhecimentos dos professores dos ensinos Básico e Secundário.

Há dias, os média anunciavam que não há nenhum outro país onde os professores tenham mais flexibilidade para adaptar os conteúdos das aulas às necessidades dos seus alunos como em Portugal. Falava-se do caso das Ciências, tendo como fonte dessa notícia o PISA (Programme for International Student Assessment). No entanto, também é verdade que grande parte dos professores se sente só na sala de aula e sem apoio do sistema de ensino que todos os dias ajuda a construir. O Ministério da Educação tem de perceber, de uma vez por todas, que a elaboração de documentos com boas intenções constitui apenas o desenho de uma rota que é preciso trilhar fornecendo mapas que orientem bem os professores na viagem que se ambiciona fazer.

* PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U. MINHO