Opinião

Conviver com o medo. Juntos.

Conviver com o medo. Juntos.

Sabíamos que voltaria a acontecer. Apenas ignorávamos onde e quando. E lá sucedeu o temido. De forma muito imprevisível e em modo terrivelmente simples. Agora um carro e uma faca são tão potencialmente letais como bombas e as kalashnikov. E os média lá estão, em forma de megafone de um terror que tão bem serve a causa de quem o promove.

Na tarde de quarta-feira, o alerta multiplicou-se nas redes sociais que replicaram sucessivas janelas, abertas em canais de informação sintonizados com a ponte de Westminster. O aparato de ambulâncias e de polícias era, por si, significativo do que acontecera. Passados poucos minutos, haveria de chegar relatos muito impressivos de gente comum, feitos em direto para o Facebook. E também fotografias. Muitas fotografias. De corpos com sangue. De gente abeirada de vítimas em sofrimento. Retive particularmente o desalento do deputado conservador Tobias Ellwood, que tentou até ao limite salvar o polícia esfaqueado pelo atacante já dentro do perímetro do palácio de Westminster. E evitei todas aquelas imagens que identificavam rostos em luta pela vida. Ontem, ao percorrer a Imprensa europeia, o sucedido estava, como seria de esperar, em grande destaque, ancorado nas palavras terror e ataque ao coração de Londres e ampliado por fotografias manchadas de sangue e preenchidas com pessoas prostradas em desprotegido chão. Cumpriam-se, assim, os propósitos do terrorismo.

Por estes dias, havermos de falar muito deste ataque terrorista. A noticiabilidade impõe-se, mas seria adequado refletirmos (mais uma vez!) no modo como expomos as vítimas destes atos bárbaros. O objetivo de quem promove tudo isto não é matar alguns, mas aterrorizar uma multidão. E, para isso, os média são aqui fundamentais. Ora é precisamente esse megafone de histerismo que jornalistas e políticos devem evitar para que as nossas vidas sigam com a estabilidade possível. Na noite de quarta-feira, a primeira-ministra Theresa May falou reiteradamente da normalidade que seria preciso repor. Também sublinhou a importância de nos unirmos. No livro "Terrorism: how to respond", Richard English lembra que a ameaça à democracia não reside tanto no derramamento de sangue, mas sobretudo nas decisões que isso desencadeia. E frequentemente a tentação para radicalizar posições em relação ao desconhecido é enorme.

Conhecendo bem a realidade dos atentados terroristas, o polaco Zygmunt Bauman, que foi também professor na Universidade de Leeds, no Reino Unido, escreveu em 2005 um interessantíssimo livro que intitulou "Confiança e medo na cidade". Nele afirma o seguinte: "seja qual for o futuro das cidades, e por muito que o seu traçado mude, ou mude o seu aspeto e o seu estilo, haverá uma característica que continuará sempre presente: as cidades são lugares cheios de desconhecidos que convivem em estreita proximidade". O atacante de Westminster tinha nacionalidade inglesa e até era bem conhecido da Polícia. Radicalizou-se no Reino Unido. Como tantos outros.

Poderemos, é certo, fechar as fronteiras dos nossos países, asfixiar os nossos espaços públicos de intransponíveis barreiras e erguer trincheiras de silêncio em relação a desconhecidos que estigmatizamos em busca de segurança. Todavia, com isso, não neutralizamos as sociedades de risco onde vivemos. Porque não é pela hostilidade que resolvemos este problema do terrorismo. Os caminhos serão mais feitos de pontes do que bunkers...

Celebram-se amanhã 60 anos do Tratado de Roma que uniu seis países na esperança de uma Europa mais unida. Ao longo dos anos, o Velho Continente foi alargando fronteiras, fixando um Mundo comum no qual infelizmente parece que não aprendemos a viver. Numa edição especial, o "Courrier Internacional", por estes dias, coloca em capa este título: "Europa, o fim?" A revista italiana "L"Espresso" anuncia que "assim termina a Europa". São tempos apocalípticos estes em que vivemos. Resta esperar que as eleições em França e na Alemanha se constituem como firmes sinais de inversão de marcha deste caminho de perigosa deriva. E que este atentado de Londres ensine aos britânicos que Brexit não resolve tudo.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO