Opinião

E as pessoas?

A narrativa jornalística não precisa de explorar o drama das vítimas do incêndio de Pedrógão Grande para transmitir a dor que essa gente sente. Basta enunciá-lo para todos nós nos mobilizarmos na ajuda. Mas agora o momento parece ser o do discurso político. Desordenado e irresponsável. Ora, nunca é demais lembrar que a centralidade dos factos nunca deve deixar de ser as pessoas que estão em enorme sofrimento. Que não compreendem o que lhes aconteceu, nem para onde vai a sua vida.

Quem no passado domingo folheasse a revista "Notícias Magazine" não ficaria certamente indiferente aos inúmeros depoimentos que aí deixaram os vários jornalistas que mediatizaram a tragédia de Pedrógão Grande. Em cada texto, percebe-se que o muito que se escreveu e fotografou ficou muito aquém do horror vivido aí. Conhecemos já a incapacidade do jornalismo para ser o espelho fiel do real que relata. Mas, como se explica, não se exacerbaram factos, nem se redimensionaram sentimentos. Grande parte daqueles que fizeram reportagem no terreno percebeu duas coisas: tamanha tragédia não cabia em palavras e em imagens e, por outro lado, o momento exigia respeito pela incalculável dor de pessoas completamente à deriva e que, por isso, precisavam de ser protegidas de um olhar mediático mais obsceno. Num texto escrito para o site da SIC Notícias, a jornalista Débora Henriques afirmava, por estes dias, o seguinte: "Guardei o microfone sempre que me contaram que perderam os pais. Os filhos. Os irmãos. Os netos. São desabafos sem filtro. Genuínos. Doridos. Que fazem connosco, porque parámos para ouvir e eles precisam tanto de falar. Alguém tem de pôr um filtro por eles. Não é preciso mostrar fraturas expostas para dizer que dói". Eis aqui um pertinente apontamento que o jornalismo deveria guardar sempre que surgir a tentação de mostrar mais do que é necessário para sabermos o que realmente importa.

Na crónica anterior, sublinhei já o bom trabalho que muitos jornalistas fizeram no terreno. Eles foram uma espécie de cola de um país que se uniu numa colossal solidariedade, visível nos inumeráveis donativos ou na multidão que esgotou o espetáculo "Juntos por todos" que se realizou no Meo Arena, na noite de terça-feira, em homenagem às vítimas. Acontece que a maior parte dos repórteres já regressou às redações centrais e a dor daquela gente de Pedrógão Grande continua por atenuar. Em alguns casos, terá aumentado, passado o choque do momento inicial. Mas os jornalistas já não estão lá para darem o testemunho por todos eles. A hora agora é do discurso político. Que surge de forma catastrófica no espaço público (mediático).

Passaram já alguns dias depois do fatídico incêndio e aquilo que sabemos acerca do que aconteceu é muito pouco. Olhando para Pedrógão Grande a partir de Lisboa, os jornalistas centram-se na classe política que, por seu lado, encontrou ali um assunto de guerrilha política partidária. O episódio desta semana protagonizado pelo líder do PSD não é mais do que um sintoma de políticos que desconhecem o país que querem governar. Não seria grave, se não mexesse com vidas de pessoas. Indefesas e a precisar de todas as ajudas. E de algum poder de decisão.

Ainda que afastado do terreno, o olhar jornalístico vai, em breve, abandonar esta região. Porque os média não sabem conviver com duas ondas noticiosas ao mesmo tempo. Por enquanto, ainda estamos muito despertos relativamente àquilo que aconteceu em Pedrógão Grande. Pelo número de vítimas mortais, pela dimensão do incêndio e, consequentemente, pela tragédia que se abateu sobre a população. Todavia, virá um tempo que abrirá a noticiabilidade para outra tematização e para outros atores das notícias. É esta a lógica mediática, mas não será esse percurso que vão trilhar as pessoas que hoje sofrem. E que continuarão com marcas para sempre.

Ora, se a memória coletiva irá esmorecendo em relação a este gravíssimo incêndio, o presente impõe pelo menos duas exigências: que se apure de forma inequívoca o que aconteceu e que se ajude financeira e psicologicamente as vítimas. Porque todos nós somos devedores em relação a esta gente esquecida.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO