Opinião

E os papers portugueses?

E os papers portugueses?

O escândalo rebentou domingo no final do dia, mas só teve um forte eco mediático na segunda-feira. O maior caso de fuga de informação envolvendo o universo financeiro tinha o seu epicentro no Panamá, mas réplicas em diversos países. Em Portugal promete-se a divulgação de uma lista de mais de 30 envolvidos. Para quando?

O caso começou com uma fonte não identificada que terá contactado o jornal "Süddeutsche Zeitung" prometendo, em troca de confidencialidade, o acesso a mais de 11 milhões de documentos da Mossack Fonseca, uma discreta sociedade de advogados especializada em esquemas de evasão fiscal que conta com uma carteira de clientes prestigiados de diversos campos sociais. Incapaz de lidar com tamanho acervo de dados, o periódico alemão convenceu o Consórcio de Jornalistas de Investigação a envolver-se nesta gigantesca investigação jornalística, recolhendo com a parceria a experiência que essa organização sem fins lucrativas, com sede nos Estados Unidos, reunira quando acompanhou os casos OffshoreLeaks, LuxLeaks e SwissLeaks. Ao longo de mais de um ano, 370 jornalistas de cerca de cem órgãos de Comunicação Social sediados em 76 países investigaram o promissor caso de uma eventual fraude fiscal. Esta semana, começaram a ser divulgadas situações muito comprometedoras para algumas figuras com projeção internacional. Em termos políticos, o mais atingido, até agora, foi o primeiro-ministro da Islândia. Na Rússia, Vladimir Putin surge num rasto que, segundo o jornal "The Guardian", conduz até si. Na China, os média estatais silenciaram as notícias à volta de nomes que seriam próximos de Xi Jinping. No mundo do futebol, Messi foi o primeiro nome anunciado, mas aos poucos a investigação vai chegando à FIFA. E Portugal?

No nosso país, até agora, foi identificado um caso. Dizem que há 34 clientes sob suspeita. Dentro das nossas portas, o Consórcio de Jornalistas de Investigação integra o "Expresso" e a TVI. Neste contexto, impõem-se algumas perguntas: por que razão estes órgãos não começaram no início da semana a divulgar mais esta investigação com novos dados sobre aquilo que aqui acontece? Vão fazer isso amanhã, dia em que sai o "Expresso"? Os 11 milhões de documentos não envolvem ilustres cidadãos portugueses? Nem bancos? Por cá, houve investigação regular ao longo deste último ano? Há uma estratégia para difundir essas notícias?

Se não for divulgado um caso suficientemente forte com provas irrefutáveis, os chamados Panamá Papers perderão força. A nível internacional e no nosso país. Os média que integram o Consórcio de Jornalistas de Investigação têm uma enorme responsabilidade no impacto que este furo jornalístico poderá ter. A informação não pode ser descontinuada por longos períodos. Atualmente, uma semana de intervalo é muito tempo. É preciso que os jornalistas envolvidos nesta investigação sejam capazes de fazer entrar o seu trabalho naquilo que se chama estrutura circular de informação. Este caso não pertence a um determinado órgão de Comunicação Social. Deve estar no centro do espaço público mediático. Só assim terá robustez para entrar no agendamento político e para obrigar as instâncias judiciais a agir. Só assim se conseguirá mudar alguma coisa no que diz respeito ao próprio sistema das offshore.

Podendo ser alvo de múltiplas críticas, esta investigação jornalística demonstra a enorme importância, e responsabilidade, dos média noticiosos na consolidação de sociedades mais equilibradas, mais transparentes e na denúncia de práticas ilícitas de cidadãos cheios de virtudes públicas e asfixiados por vícios privados. Mas este caso também destapa as repercussões que a atual crise dos média tem no desenvolvimento de um jornalismo de qualidade. O acesso a 11 milhões de documentos exige redações aptas a trabalhar com o chamado jornalismo de dados e disponíveis para o jornalismo de investigação. Ora, hoje os média noticiosos vivem pendurados na espuma dos dias, porque há muito que deixaram de ter margem de manobra para ir ao fundo daquilo que importa denunciar. E isso também explica parte da perda do impacto mediático que este caso está a atravessar. A nível internacional e em Portugal.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO