Opinião

E quando as luzes se apagarem?

E quando as luzes se apagarem?

A manchete do "Jornal de Notícias" anunciava ontem que as "cidades duplicaram investimento em iluminações". É já uma tradição que, no último Natal antes de eleições autárquicas, se intensifica. Nos próximos dias, haverá mais luz no coração dos lugares que habitamos, mas, passada a quadra natalícia, importa perceber se as nossas cidades continuarão a brilhar ou se, pelo contrário, continuarão amarradas pela dinâmica regressiva que a austeridade troikiana nos impôs nos últimos anos.

Em Natal pré-autárquico, os municípios apostaram em intensificar as iluminações. Noticiava ontem este jornal que a maioria das capitais de distrito investe mais 88 por cento em luzes de Natal. É um acréscimo desproporcionado, reconhece-se, mas ninguém irá regatear luz quando isso poderá render votos. A menos de um ano de eleições, parece haver uma coorte de autarcas que encontra nos eventos festivos parte da sua ação política e que irá, nos próximos meses, perseguir afincadamente o júbilo dos seus munícipes. Seria um bom princípio, quando ao serviço de uma política pensada em prol da qualidade de vida dos cidadãos e do desenvolvimento integrado de um concelho. Todos sabemos que não é bem assim.

Não é de estranhar que os executivos municipais em exercício procurem canalizar recursos extras para dar visibilidade a uma espécie de dinâmica encenada. É tradição e é transversal a todos os partidos. Ainda assim, para lá das lâmpadas que em véspera de eleição se multiplicam, os autarcas não podem, nem devem, subestimar o eleitorado. Os munícipes gostam do néon natalício, mas querem também perceber qual é a estratégia das suas cidades, aquela que atrai oportunidades e investimento, residentes e estudantes, visitantes e imigrantes, cientistas e artistas. Por outras palavras, querem saber se a sua cidade e o seu município se inscreveram no jogo da criação de valor e de emprego.

Em Portugal, há duas cidades que claramente perseguem estratégias de projeção e crescimento com resultados positivos bem visíveis: Lisboa e Porto. Há com certeza mérito nos seus executivos, mas há também, seguramente, uma vantagem que resulta da sua dimensão, um efeito de escala que é potenciado pela presença de grandes infraestruturas como os aeroportos e portos internacionais. Neste aspeto, é assim no nosso país como é em quase todos os outros países da Europa. O mesmo não se passa, quando olhamos para as restantes urbes, as ditas pequenas e médias cidades. Não dispondo de trunfos de impacto nacional e internacional, estas outras centralidades são, por vezes, empurradas para a espuma das luzes de Natal ou para o arraial e o pequeno evento, que pouco ou nada trazem às dinâmicas de criação de valor, mas que consomem preciosos recursos financeiros.

Ainda assim, não são poucas as cidades portuguesas que sabem equilibrar o néon com a substância. Que não descuram a alegria efémera, mas que sabem que o futuro está nas opções de fundo, numa visão clara do seu papel num espaço competitivo mais ou menos largo e, por fim, numa sensata alocação dos recursos públicos de que dispõem. Sem ser exaustiva e sem desprimor de outros bons exemplos, permito-me relevar os casos de Guimarães e de Viseu. As suas apostas na reabilitação urbana, conjugando sabiamente fundos municipais com fundos nacionais disponibilizados pelo Portugal 2020, revelam aquela combinação mágica que gera importantes legados: a preservação do património construído, a promoção de dinâmicas sociais, económicas e culturais e a cultura de serviço público. Quando se desligam as luzes de Natal, nestas duas cidades, como noutras, ficará algo mais perene, algo que deixamos aos que nos sucedem e que é tributário da memória e património coletivos das sociedades.

Neste final do ano, as estruturas concelhias partidárias e alguns independentes começam a movimentar-se para a constituição de listas e, consequentemente, para o desenho de propostas que virão a consubstanciar-se em programas eleitorais. Seria bom que, nesses manifestos de intenções, se começasse pela substância, material ou imaterial, e só no fim se adicionasse o néon.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO