Opinião

Espanha ingovernável

Sigo a vida política em Espanha algo desorientada, porque tudo aquilo que aí acontece é do domínio do inverosímil. O país vizinho está sem Governo há nove meses e arrisca-se a que a situação se arraste assim até ao próximo ano. Poder-se-á dizer que o povo assim o ordena. Não é bem essa a realidade. Os líderes do PP e do PSOE são aqui os grandes responsáveis pelo impasse. Porque se revelam incapazes de formar Governo e não têm suficiente cultura democrática para perceber que é tempo de sair de cena.

As primeiras eleições gerais, realizadas a 20 de dezembro de 2015, prometiam surpresas da parte de Podemos (à Esquerda) e de Ciudadanos (à Direita), os dois novéis partidos que ameaçavam seriamente o habitual bipartidarismo espanhol. É verdade que as urnas ditaram o fim da confortável alternância de poder entre os populares e os socialistas, mas as negociações que os espanhóis previam abortaram. O líder do PSOE, Pedro Sánchez, ainda tentou a investidura, mas na segunda tentativa de aprovação foi incapaz de reunir a maioria de votos. Estava aberto o caminho para novo escrutínio que aconteceu a 26 de junho e que reuniu resultados similares, o que implica passar o mesmo calvário. Desta vez, o presidente do Partido Popular disponibilizou-se para enfrentar a Câmara dos Deputados e testar aí a sua capacidade para convencer as diferentes bancadas. Enganou-se e os socialistas sentiram-se vingados. O mais previsível agora é que aconteçam novas eleições que, a obedecer ao calendário eleitoral, recairiam no dia de Natal. Não será esse o mal maior. O mais grave é repetir-se a mesma tendência de votos e tudo cair no mesmo dédalo em relação ao qual ninguém parece conhecer a rota. E isso pode acontecer, porque os atuais líderes partidários extremaram posições entre si. Por isso, a solução seria mudar as lideranças, mas mais fácil seria dobrar novamente o cabo das Tormentas.

No Partido Popular, a substituição de Rajoy é tema tabu. As eleições para o Parlamento regional da Galiza a 25 de setembro reforçarão os populares e isso ajudará Mariano Rajoy a consolidar o seu lugar no partido e as suas aspirações em continuar na Moncloa, mesmo que todos tenham já percebido a sua incapacidade em dialogar com os outros partidos e em controlar casos de corrupção dentro de portas.

No PSOE, Pedro Sánchez não carrega o desgaste governativo, que nunca experimentou, mas sofre as consequências de sucessivas derrotas eleitorais e de uma campanha radical com críticas à Esquerda e à Direita, o que lhe inviabiliza acordos com o Podemos (que parte do PSOE rejeita) e com o PP (que Sánchez parece odiar). Nos corredores do partido, muitos conspiram contra si, mas ninguém quer ficar com o ónus de uma saída que nunca garantiria uma viragem radical dos votos. Eterna rival de Sánchez, a presidente da Junta da Andaluzia ousou esta semana dizer em público o que sussurra em privado há muito tempo: o PSOE deve passar rapidamente para a Oposição. Ora, isso significaria que os socialistas teriam de viabilizar um Governo comandado por Rajoy e isso Sánchez já jurou que nunca fará. Susana Díaz teme avançar mais nas sugestões, porque a conquista da liderança dos socialistas ditaria uma saída do lugar que agora ocupa e as eleições gerais são uma incógnita para todos...

Consumidas as margens de negociações e esgotadas as possibilidades de outras lideranças, Espanha deve preparar-se para novas eleições com velhos políticos. Os partidos já disseram que poderão encurtar a campanha para evitar a coincidência do escrutínio com o Natal, mas não poupam a mobilização de 800 mil espanhóis em dia de votação. Só nas mesas eleitorais, são necessários mais de 500 mil espanhóis. Somam-se depois as forças policiais (cerca de 100 mil elementos), os candidatos e suplentes (quase 10 mil), os representantes da administração central (35 mil), elementos das delegações do Governo, secretários dos ajuntamentos... Eis aqui uma colossal movimentação num país imobilizado à espera de políticos capazes de governar.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO