Opinião

Estou aqui, eu sou tu

Daqui a pouco menos de um mês, assinalaremos os 25 anos do aparecimento da televisão privada em Portugal. A 6 de outubro de 1992 surgia a SIC e, a 20 de fevereiro de 1993, a TVI. Era o começo de uma grande mudança social, de uma transformação do campo mediático e de uma alteração da essência de uma certa ideia de televisão. Por isso, esta comemoração pertence a todos nós.

Recuamos aqui até a um tempo de partidas rápidas (com a SIC a conquistar velozmente a liderança), de falsas partidas (com a TVI a iniciar um projeto ligado à Igreja que se tornou rapidamente insustentável) e de corridas de fundo (com o operador público numa busca contínua da sua identidade). Um tempo memorável, sem dúvida. Umberto Eco vê aqui a transição daquilo a que chama a paleotelevisão (a TV do tempo do monopólio) para a neotelevisão (a TV da era da concorrência). Mais do que uma janela, os novos dispositivos televisivos privados pretenderam, desde o primeiro momento, ser um espelho para as audiências, encarando o quotidiano como principal referente da programação. E isso desenvolveu-se sempre em duas dimensões: a temporal, na medida em que as emissões se submetem ao ritmo dos estilos de vida dos portugueses, ainda que também os estruturem; e a espacial, pois aquilo que se vê no pequeno ecrã encontrou sempre a sua âncora nos lugares que habitamos. Olhamos para a TV e ali está ela a dizer-nos: "olha para mim, eu estou aqui, eu sou eu e eu sou tu". E nós, maravilhados, não a largamos. E foi graças a isso que a televisão foi conquistando o seu poder. Colossal nestes anos.

Quando a SIC apareceu, parecia impossível concorrer com a RTP, que somava algumas décadas de existência e acumulava popularidade junto do público. Bastaram três anos para o primeiro canal privado português ultrapassar o canal generalista público. Em 1995, o sucesso da estação de Carnaxide parecia inabalável. Em cinco anos, a TVI, o canal que se manteve durante anos numa aparente letargia, começou a bater-se pela liderança. A partir de 2001, conseguiu garanti-la no horário nobre e progressivamente foi ganhando protagonismo noutras franjas horárias. Nos últimos anos, a RTP afastou-se de uma concorrência aberta com as TV privadas, prescindido de táticas que se guerreiem no mesmo terreno. Tem sido uma opção inteligente.

Olhando para o país que éramos nos inícios dos anos 90, encontramos um Portugal substancialmente diferente. Muito mudou. E nessa mudança a televisão teve, decerto, um papel importante. Mais em determinados campos sociais, é certo. Na política, a sua influência foi decisiva. Nos primeiros anos, a SIC foi sempre um contrapoder que desgastou enormemente uma certa ideia de oásis que o cavaquismo queria fazer vingar. Os congressos partidários reconfiguraram-se, as campanhas e as noites eleitorais submeteram-se às exigências audiovisuais e os políticos foram obrigados a seguir novos ritmos e a apresentar outro discurso. O mundo do futebol também se transformou. Os programas que falam sobre o mundo da bola, popularizados pelo célebre "Os donos da bola", que Emídio Rangel quis fazer inicialmente com os presidentes dos principais clubes, criam uma agenda estruturante daquilo de que se ocupam os clubes e fazem jorrar para a opinião pública intermináveis polémicas. O campo da justiça foi igualmente afetado. Todos lembram hoje a intensa mediatização do julgamento do padre Frederico Cunha na Ilha da Madeira. A seguir acumularam-se processos amplamente mediatizados e nem sempre da melhor maneira...

Se é verdade que a televisão revolucionou o país, nem tudo o que fez merece aplauso. Esqueceu muitos campos sociais (porque não se mediatiza o país do conhecimento que também somos?) e promoveu um entretenimento grotesco. Os jovens com menos de 20 anos que hoje veem televisão conhecem, sobretudo, uma oferta televisiva que se divide entre o "Big brother" e os seus formatos derivados e a ficção nacional. É demasiado redutor.

Ao comemorar um quarto do século das privadas, impõe-se uma reflexão profunda daquilo que a televisão foi, mas, acima de tudo, também do que quer ser. É este debate que urge fazer. Voltaremos a este tema em próximas crónicas.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO