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Eurovisão, um marco para todos

Eurovisão, um marco para todos

"All Aboard!": é este o slogan do Festival Eurovisão que, pela primeira vez, se realiza em Portugal, graças à vitória de Salvador Sobral e da sua lindíssima canção "Amar pelos dois", em Kiev, na Ucrânia. É, sem dúvida, um momento histórico para Portugal, particularmente para a televisão pública. O nosso país tem a oportunidade de mostrar o melhor de si face a uma audiência global de 200 milhões de telespectadores e a RTP encontra aqui um irrepetível momento para demonstrar a qualidade dos seus profissionais.

A primeira edição do Festival Eurovisão da Canção aconteceu a 24 de maio de 1956 na Suíça. As emissões experiências da RTP arrancariam cerca de quatro meses depois e as regulares só se iniciariam a 7 de março de 1957. A TV pública demorou sete anos a criar o Festival da Canção, mas, desde 1964, o formato tornou-se uma das suas principais marcas distintivas e uma referência no campo musical. Ainda que a "Oração", "Sol de inverno" e "Ele e ela" não tenham reunido muitos votos na Eurovisão, a verdade é que estas primeiras músicas e os respetivos intérpretes (António Calvário, Simone de Oliveira e Madalena Iglésias) se transformaram em ícones de um programa que se constituía como uma espécie de âncora de referência da televisão portuguesa. Em 1980, decidiu-se que a cor chegaria aos ecrãs de TV no aniversário da RTP (7 de março) e em dia do Festival da Canção. Porque o país parava para ver a emissão. Aos poucos, esse elã foi sendo esbatido a ponto de o interesse ser apenas residual. Salvador Sobral, e, há que reconhecer, a RTP conseguiram reabilitar a marca do Festival da Canção, projetando-a a um nível algo impensável. Portugal ganhou o Eurovisão e isso é um grande orgulho. Lisboa acolhe a edição deste ano e isso é um enorme privilégio.

Poder-se-ia aqui falar da projeção que o país vai alcançar graças à gigantesca audiência deste formato ou à cobertura que os mais de três mil jornalistas estão a fazer para vários países, mas será igualmente importante destacar aqui outros aspetos: a consolidação de uma identidade portuguesa que se torna agora cada vez mais cosmopolita e o trabalho de enorme qualidade desenvolvido pela televisão pública.

Será sempre memorável a abertura televisiva da primeira eliminatória da edição deste ano da Eurovisão, planeada e realizada pela RTP. Em menos de dois minutos, estão lá todos os nossos traços distintivos: o mar, o fado, as pontes, a gastronomia, o Portugal da nossa História e aquele que erguemos em período pós-moderno, a folia e, claro, as pessoas, de todas as idades e de todas as condições. Todos juntos. Todos a bordo. No ritmo certo. Com sons bem impressivos. Este é um grande, grande momento televisivo e funciona como uma espécie de sinédoque do excelente projeto erguido pela TV pública.

Ao longo destes 61 anos de existência, a RTP foi confrontada com coberturas mediáticas que fizeram história. A primeira aconteceu mesmo antes do arranque das emissões regulares. A 18 de fevereiro de 1957, a rainha Isabel II de Inglaterra chega a Portugal para uma visita de quatro dias. A TV pública vê-se obrigada a acompanhar a deslocação em permanência, produzindo conteúdos para a sua antena e para fornecer a canais de outros países. Foi uma prova dura. Que se superou e que, decerto, deu fôlego para a regularidade das emissões. Mais perto de nós, o Euro 2004 obrigou a uma cobertura avançada em termos tecnológicos e à mobilização de profissionais de várias áreas. E novamente se conseguiu inovar.

O Festival Eurovisão, com um orçamento a rondar os 20 milhões, é certamente um dos maiores eventos de sempre realizados em Portugal. E eis-nos, novamente, a responder com sucesso. No domingo, em noite de final, a audiência vai crescer enormemente; as redes socais irão, mais uma vez, eleger este programa como mote de grande parte das publicações. E a TV pública ali estará a pôr no ar uma emissão que será um elo de ligação de todos os portugueses. Que se projetará à escala global. Como traço de um cosmopolitismo luso que é hoje irrefutável.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U. MINHO