Opinião

Falar para não escutar

Falar para não escutar

Não é uma campanha interessante esta que circula pelo país. Os cidadãos já perceberam isso, demonstrando pouco interesse em conversar com os candidatos. Eles, por seu lado, também não demonstram grande motivação para ouvir. Querem mais falar. Porque assim evitam que alguém lhes diga o que temem escutar. Anteontem a derrapagem do défice público trouxe um novo elã a discursos que estavam a tornar-se demasiado enfadonhos.

Tal como é pensada, a campanha eleitoral dirige-se essencialmente aos jornalistas. É para os média que os políticos fazem a volta a Portugal em caravana. E é, sobretudo, em função das imagens televisivas que os candidatos se disponibilizam para conversas mais expressivas ou para beijos e abraços mais demorados. Há que construir uma ideia de afetividade e de proximidade que, depois das eleições, desaparece subitamente. Um candidato a primeiro-ministro é sempre alguém muito diferente de um primeiro-ministro. Todos já demos conta disso. Daí a falta de paciência para este faz-de-conta-que-somos-muito-amigos que depressa se converte numa postura de distanciamento e, nos casos mais extremos (embora não menos frequentes), de muita sobranceria.

Finda uma semana de campanha eleitoral (oficial), fica para memória futura comícios realizados em salas de pequena dimensão onde um exíguo número de militantes devotos agita coloridas bandeiras, candidatos a interpelarem pessoas que param a contragosto para uma conversa forçada e gente que caminha a distância para não se cruzar com as comitivas partidárias. Este país não está mobilizado para os nossos políticos. Ninguém desvalorizará a importância destas eleições, mas não se encontra muito entusiasmo em relação àqueles que se apresentam a sufrágio. Não é custoso encontrar explicações para isso, se olharmos para os caciques que se multiplicam nos partidos, para as lógicas que premeiam gente sem qualidade com lugares elegíveis ou para programas desajustados ao eleitorado, nomeadamente aos mais jovens que avolumam um crescente e preocupante índice de abstenção.

Percorrendo os programas eleitorais, que propostas realistas se preveem para quem tem mais de 20 anos? Alguém se preocupou em lançar para a primeira linha do espaço público mediático um candidato mais jovem? Que campanha está pensada para esta franja etária que não se revê em arruadas ou em visitas a feiras e mercados? Talvez seja mais avisado não explicitar respostas óbvias. Espera-se, pelo menos, que os líderes partidários estejam conscientes de que a sua mensagem não passa para os mais novos. Para isso, é necessário alguma mediação. Que se faz através dos pares.

Abre-se hoje a última semana para as caravanas convencerem os eleitores de que as suas propostas são as melhores. A coligação Portugal à Frente tem a seu favor um conjunto de sondagens que, nestes últimos dias, vem alavancando um assinalável entusiasmo em torno de Passos Coelho e de Paulo Portas, mas tem contra si os números do défice que estão a ser bem aproveitados pela Oposição. O PS passará, a partir de agora, para círculos mais favoráveis, esperando que esses lugares ajudem António Costa a transmitir confiança numa vitória, embora falte ao líder socialista mais gente do seu partido sintonizada com estas eleições. Catarina Martins continuará a albergar-se em terras que lhe garantem contacto com populações descontentes em relação a este Governo, necessitando urgentemente de renovar o seu discurso com outros tópicos. Por seu lado, Jerónimo de Sousa procurará fazer o mesmo, sendo igualmente importante garantir que a sua camarada de coligação lhe faça mais companhia.

Com os resultados ainda indefinidos, estas eleições terão de ser disputadas até ao último momento e usando todas as táticas. O maior problema aqui reside na pouca criatividade e na falta de inovação para fazer diferente daquilo que é habitual para assim atrair aqueles que partiram em debandada da política. Qual a diferença entre esta campanha e as que se realizaram em 2011, 2009 ou 2005? Nenhuma, excetuando o facto de as anteriores terem mobilizado mais gente nas ruas. Em 2015, regredimos. Muito.