Opinião

Férias grandes

Lembro-me das férias serem intermináveis. Das brincadeiras na rua sem hora para acabar. Do sol intenso e dos refrescantes banhos. Da praia com nortada.

Há uns anos, as férias voltaram a ser grandes. Antes que junho termine, o meu filho de sete anos interrompe a vida escolar para dois meses e meio de férias. Que eu não consigo ter, mas lá vou adaptando a agenda.

São as memórias mais felizes que guardo da minha infância, essas das férias grandes. Era o tempo de uma doce liberdade. Sem pressas. Saíamos de casa para brincadeiras com amigos e regressávamos mais ou menos à hora combinada. Sem a pressão do telefone. Vivia-se ao ritmo dos dias grandes. Lembro-me de ler imenso no pequeno jardim da casa da minha avó. Lembro-me de me juntar a outras crianças para jogar à bola ou andar de bicicleta. Lembro-me do mar frio do Norte que, naquela altura, nunca me pareceu tão gelado como hoje. São memórias felizes que guardo das férias de verão da minha infância.

Há uns anos, o meu filho reabilitou a ideia de férias grandes. Que para ele começam em junho, altura em que eu me ocupo de teses, de testes e de trabalhos para corrigir, em que as reuniões se multiplicam e em que tenho de ir a uma ou outra conferência. E, claro, há ainda uma atualidade noticiosa para acompanhar. Aí, o dia começa mais cedo e estica-se até onde o sono consegue resistir. No meio lá se vai fazendo um intervalo para umas improvisadas atividades que tragam para junto de nós um pequeno sabor a férias.

Chegados a agosto, aproveita-se mais o tempo. Quem tem filhos pequenos sabe que as grandes leituras em férias não passam de uma boa, mas inconcretizável, intenção. Há outras atividades. Desde que o meu filho aprendeu a nadar, dei comigo a ir mais vezes ao mar e a trocar as espreguiçadeiras por banhos permanentes na piscina. Faço mais exercício e ganho rapidamente outra cor. Também a pequena prancha e a solicitação para que seja parte da brincadeira levam a que mergulhe poucos minutos depois de chegar ao areal. Ter um rapaz também nos estimula a chutar mais à bola junto ao mar e a tentar dar uns toques de mão dentro de água.

Devo reconhecer que as minhas mais fortes memórias de infância continuam lá onde sempre estiveram: nos livros que tive a sorte de ler. Este ano adquiriram uma certa magia com a leitura em voz alta de "Os Cinco" e "Os Sete", de Enid Blyton. Em certos momentos, eu e o meu filho abrimos espaço para a terrível Zé e para o ajuizado Júlio (dos "Cinco") ou para o aventureiro Pedro e a curiosa Paulina (dos "Sete"). Afinal, as minhas férias grandes podem ser recuperadas.

*Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho