Opinião

Fim da "silly season"

Ao longo dos últimos anos, tem havido uma reconfiguração da chamada "silly season", aquele período de verão em que as fontes de informação que habitualmente são notícia vão para férias e a agenda mediática segue outros valores-notícia. Mais leves, mais próximos do entretenimento. Não foi assim em julho e em agosto. Por estes dias, muitos regressam ao trabalho, mas nos média jornalísticos não se notarão mudanças significativas. Porque este foi, na verdade, um verão quente. Também nos média.

Os incêndios provocam sempre um agendamento particular. Sendo de grandes dimensões, a respetiva permanência no topo dos alinhamentos torna-se obrigatória. Aí, a narrativa jornalística costuma ir além do relato dos fogos e das respetivas consequências, reclamando também reações dos partidos políticos. Este ano, porém, tudo foi excecional. Porque nunca houve uma tragédia como a de Pedrógão Grande. Que os média souberam fazer permanecer em destaque. Porque voltaram aos locais mais afetados, relembraram ajudas prometidas, falaram com especialistas de diversas áreas e obrigaram, de certa forma, os políticos a centrarem-se nesta tematização. Não por acaso vimos o presidente da República e o primeiro-ministro a visitarem zonas destruídas pelos incêndios e a comprometerem-se na ajuda ao regresso à normalidade possível. Este não foi certamente o tempo das "soft news".

A nível internacional, Donald Trump continuou a surpreender com a sua desastrada política, mas aquilo que mais se destacou foi o atentado em Barcelona que sentimos com muita proximidade. Não podemos dizer que a cobertura mediática à escala global, nomeadamente em Espanha, tenha sido exemplar. Nos últimos tempos, registou-se um enorme retrocesso nas promessas de recato quanto à exposição das vítimas. Todavia, os jornalistas insistiram bastante no agendamento da segurança, motivando as entidades públicas a cuidados acrescidos. E eis-nos a olhar para o campo mediático como refletores de um medo que é de todos, mas também promotores da normalidade da vida de todos os dias.

Também os média foram notícia. A compra da Media Capital pela Altice foi anunciada como uma ameaça à estabilidade de um dos principais grupos mediáticos e a venda de alguns títulos da Impresa foi publicitada como um inesperado sobressalto. O universo dos média continua muito instável e os grupos económicos não estão a conseguir encontrar novos modelos de negócios para uma atividade a atravessar uma crise que pode comprometer o equilíbrio social.

A partir de hoje, as chamadas fontes oficiais dos diversos campos sociais intensificarão o seu trabalho e isso vai notar-se no espaço público mediático. Não notaremos propriamente mudanças abruptas. Porque é escassa a capacidade de surpresa daqueles que normalmente se constituem como notícia. Pelo menos, em casos não disruptivos. Haverá apenas mais notícias. Porque os políticos terminaram as suas férias. E porque há umas eleições para ganhar. Nestas autárquicas, não será apenas o poder local que estará em disputa, mas também as direções nacionais. Todos sabem isso. Espera-se, portanto, um contrapoder das redações para não vergar a poderosas assessorias que, em tempos de campanha eleitoral, procuraram impor com algum músculo as suas agendas.

Olhando para trás, estes dois meses constituíram-se como um tempo pesado em termos de acontecimentos mediáticos. Mas, mesmo em tempo de férias, logo ainda com menos recursos humanos, as principais redações não passaram ao lado do essencial que importava noticiar, nem tão-pouco pouparam esforços para contextualizar o que interessava perceber melhor. E é com esta nota positiva que abandonamos esta "silly season" tão especial. Espera-se que este investimento seja consolidado nos próximos tempos, ainda que as notícias do campo mediático não permitam grande otimismo.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO