Opinião

Fora do tempo e do lugar

Fora do tempo e do lugar

Os partidos perderam o controlo das eleições à Presidência da República (PR). Os putativos candidatos encontram nos palcos mediáticos o espaço propício para delinear estratégicas, arriscar táticas e assumir a corrida em público. No entanto, quando chegar a hora de ir para o terreno, dificilmente sobrevivem sem as máquinas partidárias que, desta vez, poderão estar ao serviço de candidatos que não escolheram. E isso traz riscos.

A propositura de uma candidatura à PR é, em teoria, feita por qualquer pessoa maior de 35 anos, de origem portuguesa, inscrita no recenseamento eleitoral, que esteja no gozo de todos os direitos civis e na posse de, pelo menos, 7500 assinaturas de apoio. Na prática, o processo é mais complicado. Porque é preciso muito dinheiro para pôr em marcha uma campanha e muitos recursos humanos para mobilizar pessoas. Mas os partidos, por enquanto, podem esperar, porque o tempo agora é para posicionar nomes. E nisso os media têm um papel importantíssimo, porque vão construindo uma realidade que os partidos não conseguem travar.

À esquerda, Sampaio da Nova, que enfrenta um enorme défice de notoriedade pública fora dos meios académicos, tem apostado mais na Imprensa para antecipar a corrida a Belém. Na última edição do "Expresso", mandou "os promotores da candidatura" dizer que está "pronto a avançar" e que o apoio do PS "é seguro" (talvez tivesse sido mais acertada outra expressão). No sábado, numa entrevista ao "Jornal de Notícias", declarou-se "disposto a dar tudo pelo país". Seria mais avisado falar com os jornalistas quando tivesse algo de substância para dizer sobre o cargo ou quando houvesse o apoio institucional do PS, mas isso será o que menos importa. Interessa, acima de tudo, aparecer. Também à esquerda, Carvalho da Silva apressou-se a anunciar, na TVI24, que está disponível para concorrer à PR. Fê-lo num discurso algo confuso, sentado num banco corrido junto de uma janela, vendo-se em fundo um extintor vermelho. Não se percebeu muito bem que propostas de valor tinha para apresentar, mas também isso não será prioritário. O seu depoimento fez agendamento mediático, o que justificou a iniciativa. Henrique Neto, o único a apresentar com alguma formalidade a sua vontade de concorrer à PR, também lá vai fazendo os desdobramentos possíveis pelos media. O PS não gostou? Paciência.

À direita, Pedro Santana Lopes concedeu, no sábado, ao "Diário de Notícias", uma extensa entrevista para se queixar de Marcelo Rebelo de Sousa, para criticar Cavaco Silva e para jurar que não apresenta qualquer candidatura antes de outubro, mas, neste tempo, é certo que vai andar por aí. Pelo plateau da SIC Notícias e por outros palcos que, entretanto, surgirão, vai fazendo um contraponto à missa dominical que Marcelo celebra no Jornal das 8 da TVI. A este extenso grupo, juntou-se ontem outro candidato, Paulo Morais, que anunciou a sua entrada na corrida em entrevista ao "Correio da Manhã", jornal onde é colunista.

Poderíamos lembrar que este não é o tempo para falar de eleições presidenciais, mas das legislativas e das propostas de cada partido para o futuro do país. Todavia, a agenda mediática descentrou-se destas prioridades e lá se vai vergando às estratégias dos candidatos a Belém. À esquerda, prevalecem candidaturas que se apressam na sua apresentação pública. Precisam de ganhar notoriedade e cativar rapidamente os apoios formais dos partidos. E, quando isso acontecer, terão lugar cativo na campanha para as legislativas que, acreditam, será favorável a este espectro partidário. À direita, os candidatos querem retardar esse anúncio. Porque sabem que não são bem-vindos nas direções do PSD e CDS e porque querem manter o mais tempo possível as suas colaborações fixas com os media, palcos por excelência de grande visibilidade e influência.

E eis como todos se posicionam fora do tempo e do lugar, tendo ainda em comum o facto de obrigarem os partidos a entrar pela porta dos fundos no apoio às suas candidaturas. E isso, num futuro próximo, terá repercussões na coabitação entre S. Bento e Belém.