Opinião

Francisco será um reformista?

Francisco será um reformista?

Jorge Mario Bergoglio assinalará, a 13 de março, cinco anos de pontificado. O Papa que veio do fim do Mundo tem, neste tempo, dado sinais contraditórios: anuncia uma palavra reformista, mas, por vezes, protagoniza gestos demasiado coniventes com a estrutura mais conservadora da Igreja. O mês de dezembro foi paradigmático daquilo que tem sido este último quinquénio.

Foi um discurso pronunciado entre sorrisos, mas, quando interpretadas com mais cuidado, as frases ditas pelo Papa Francisco aos cardeais que se reuniram na sala Clementina do Palácio Apostólico do Vaticano para ouvir os tradicionais votos de Natal são de uma enorme dureza para aqueles que comandam a Igreja. Bergoglio falou da "lógica desequilibrada e degenerada de conluios", dos "traidores da confiança", daqueles que se deixam "corromper pela ambição ou pela glória vã". E, citando o arcebispo belga Frédéric François Xavier de Mérode, conselheiro do Papa Pio IX, assegurou que "fazer reformas em Roma é como limpar a esfinge do Egito com uma escova de dentes". A censura não foi dirigida a todos, mas certamente que cardeais como o americano Raymond Burke ou o africano Robert Sarah perceberam muito bem o sentido de cada palavra. Por entre as várias conspirações de bastidores, Burke liderou recentemente uma carta aberta questionando Francisco acerca da sua posição relativamente aos recasados, enquanto Sarah tem protagonizado várias declarações no espaço público mediático a favor de rituais mais formais nas celebrações litúrgicas, contrariando ostensivamente a vontade do sumo pontífice que defende eucaristias mais partilhadas com os leigos.

Numa peregrinação lenta através dos pesados corredores dos (vários) poderes do Vaticano, Francisco vai contrariando, pela palavra, as fações mais conservadoras de uma Igreja avessa à mudança. Nestes anos, já defendeu o batismo de filhos de mães solteiras ("somos muitas vezes controladores da fé, em vez de facilitadores"); a integração dos homossexuais ("se uma pessoa é gay e procura o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?") e a inevitabilidade de determinados divórcios ("em alguns casos, a separação é moralmente necessária para tirar os filhos da violência"). No entanto, neste tempo, pouco se avançou em termos de uma doutrina mais progressista, gravada em texto escrito e declinada nos gestos do clero que comanda dioceses, paróquias ou movimentos católicos.

Há que reconhecer que se esperaria da parte de Jorge Mario Bergoglio uma outra audácia para levar para a frente as reformas que defende. Aliás, neste quinquénio, salientam-se alguns sinais de uma enorme contradição. Por exemplo, não é fácil entender a opção do Papa Francisco em ter estado presente, no dia 21 de dezembro, no funeral do cardeal americano Bernard Law, acusado de esconder um dos maiores escândalos de pedofilia da Igreja católica, bem retratado no filme Spotlight. Claro que poderemos ver nessa presença um gesto de compaixão e de perdão, mas também é legítimo ler nessa escolha alguma falta de coragem para tomar uma posição mais firme em relação a uma situação que deveria exigir uma condenação dura, inequívoca, pesada. Porque é dentro de portas que se reconhece a firmeza de um pontificado. E é isso que tem faltado a quem, nestes anos, comanda a Igreja a partir de um Vaticano cheio de vícios humanos.

Faltam três meses para o Papa Francisco assinalar os seus primeiros cinco anos em Roma. Não será certamente tempo suficiente para anunciar assinaláveis reformas, mas é a altura certa para reacertar caminhos. Jorge Mario Bergoglio sabe que a Igreja que comanda necessita de mudanças profundas. Porque os fiéis não se reconhecem na formalidade de certos rituais, porque muitos leigos deixaram de ver na Igreja um reflexo das preocupações e das alegrias do seu quotidiano, porque muitos crentes fugiram de templos que deixaram de ter alma... Como se escreve nos Evangelhos de S. Lucas e de S. Mateus, "a messe é grande, mas os trabalhadores são poucos". Todavia, é pela capacidade de fazer crescer os frutos prometidos que se avaliará o pontificado de Francisco.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO