Opinião

Guerra de audiências ao rubro

Guerra de audiências ao rubro

Quando em outubro de 1992 a SIC generalista estreia as suas emissões, declara uma guerra sem tréguas à RTP que tinha operado 35 anos em regime de monopólio e torna-se líder de audiências em escassos anos.

Em 2000, a TVI renasce das cinzas e começa uma rampa ascendente. Em 2019, a SIC contra-ataca com Cristina Ferreira. O operador de serviço público, pela sua natureza, não tem meios para ser parte deste combate, mas apresenta características que podem fazer a diferença face à estratégia dos canais privados de erguerem uma programação assente na lógica do audímetro.

Cristina Ferreira foi o trunfo que a SIC lançou agora para revolucionar as audiências e a apresentadora transformou-se ela própria num formato televisivo. Com fórmulas já testadas noutros canais, que Carnaxide exacerbou. Com sucesso nestes primeiros dias. "O Programa da Cristina" faz-se num cenário que dá a ver uma casa. A "Praça da Alegria" é assim. O "Você na TV" também. Todavia, Cristina Ferreira faz de conta que vive ali. Faz a cama, faz bolos... passeia-se pelas divisões e abre a porta da sua residência a pessoas com notoriedade pública e a cidadãos anónimos que vão entrando, sem cerimónia, ao longo da manhã. São da (sua) casa. A RTP e a TVI também adotam essas estratégias, mas sem encenarem tanto a vida de todos os dias. Na quarta-feira, Manuel Luís Goucha e Maria Cerqueira Gomes tentaram a imitação e puseram-se a limpar a sua casa. Não deveriam fazer isso, porque, ao lado, há quem pareça mais espontâneo.

Nem tudo se passa dentro do lar. No programa de estreia, Cristina Ferreira foi até Castro Laboreiro. Vestiu-se de preto, cobriu-se com uma capa e foi viver a tradição do "sobe e desce", acompanhando as mulheres no percurso até às inverneiras, a aldeia onde permanecem até ao mês de março, altura em que regressam às brandas para os meses mais quentes. Não se trata aqui de algo inovador. Na RTP, a Sónia Araújo e o Jorge Gabriel frequentemente tornam-se parte do vivido de gentes locais. Na SIC, tudo foi construído como se Cristina Ferreira tivesse ficado ali vários dias e fosse um membro daquela comunidade. A TV do real nunca fingiu tanto, mas também nunca foi tão eficaz. Há ainda outro elemento explorado aqui: as emoções. Veja-se a entrevista de Luís Filipe Vieira e a lembrança do boné do pai que acompanha sempre o presidente do Benfica. Muito emocionado, Vieira pediu para mudar de assunto. A apresentadora disse que sim, mas ainda ficou algum tempo mais a falar dessas recordações. E o realizador lá ia apertando os planos, tornados mais dramáticos pela música de fundo que acompanhava a conversa. Há que reconhecer que todos estes elementos agarram audiências.

Neste tempo (demasiado) longo de espera, a SIC não adensou muito as expectativas, mas nos últimos dias trabalhou bem a aparição do programa. Daniel Oliveira levou Cristina Ferreira ao "Alta Definição" (e obrigou a TVI a suspender a entrevista de Fátima Lopes a Maria Cerqueira Gomes) e, nesta semana de estreia, almofadou o novo formato com o programa "Alô Portugal" e fez entrar nas manhãs pesos pesados da estação (Clara de Sousa, Rodrigo Guedes de Carvalho...).

No primeiro embate, ganhou a SIC. A TVI não vai desarmar, mas será difícil Manuel Luís Goucha ultrapassar Cristina Ferreira. Numa estratégia de clonagem quem procura copiar táticas perde e o "Você na TV" não deveria esquecer isso. O formato com mais espaço para se assumir como alternativa é a "Praça da Alegria", que será sintonizado por quem não se identifica com esta acentuada encenação do vivido que se faz num registo permanente de exploração de emoções. Por estes dias, houve uma evolução na programação televisiva que afetou também a informação. Na segunda-feira, os noticiários da SIC integraram conteúdos do "Programa da Cristina". E isso poderá ser um sinal de outras mudanças. Que impõem a nossa reflexão.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO