Opinião

Legados de Diana

Nos próximos dias, ouviremos falar bastante da princesa de Gales a propósito do 20.º aniversário da sua morte. As efemérides estão ao serviço de uma memória que se procura perpetuar. A de Diana Spencer prevalecerá por muito tempo. Porque a sua vida inaugurou uma nova monarquia europeia e porque quem morre jovem conquista uma certa eternidade. Eis a história de uma mulher sequestrada pelos média que, a determinada altura, planeou deles se servir para impor as suas pretensões, ignorando uma regra básica: a exposição da vida privada em público não tem limites. E isso é muito perigoso. Para Lady Di, foi fatal.

Uma certa indústria mediática, nomeadamente os tabloides e as revistas ditas sociais, encontra nas figuras públicas uma mercadoria que lhe garante a sobrevivência. Pelo glamour que ostenta, a realeza constituiu sempre um agendamento obrigatório no campo mediático. Tudo era observado com alguma distância, imposta por reis, rainhas, príncipes e princesas, algo inábeis no contacto com os súbditos e, reconheça-se, demasiado altivos para cedências à curiosidade alheia. Essa regra geral no Reino Unido foi sendo exacerbada por uma Isabel II muito formal e ciosa da intransponibilidade dos seus palácios. O surgimento de Diana foi uma espécie de sobressalto que Buckingham acreditou ser controlável. O que não aconteceu.

A tímida jovem que se enamorou do príncipe Carlos, embora descendente da aristocracia britânica, era excessivamente espontânea para absorver o rígido protocolo de uma monarquia fossilizada em regras. Os média cedo souberam aproveitar essa simplicidade, transformando a princesa num produto muitíssimo disputado por todos. Acima de tudo, por jornais e revistas que cultivam aquilo que a investigadora Françoise Benhamou designava como "economia do star system", um conceito que dá nome a um livro seu no qual defende que hoje mais do que promover talento importa criar celebridades que suscitem o interesse permanente de milhões de pessoas. Não se trata propriamente de uma novidade. O sociólogo Edgar Morin situa a génese desse "star-system" na Hollywood dos primeiros anos do século XX, quando as companhias cinematográficas americanas começaram a entrar em concorrência entre si, criando-se, consequentemente, um sistema de vedetismo que alimentou, desde cedo, os média à escala global, como explicam Jessica Evans e David Hesmondhalgh no livro "Understanding media: inside celebrity".

Ora, não é por acaso que o fenómeno Diana se amplia à escala global, quando a princesa se converteu numa estrela com traços bem próximos daqueles que davam corpo ao universo hollywoodesco. Progressivamente, a princesa de Gales foi apurando o seu guarda-roupa, assinado, a partir de certa altura, pelos melhores costureiros e composto pelas melhores marcas. Também foi alargando o seu círculo de amigos, integrando nele figuras do mundo do espetáculo (cantores, atores, criadores de moda...), não descurando, por outro lado, uma agenda internacional que a mantinha próxima dos principais líderes mundiais. Diana movimentava-se bem em vários círculos. Porque era empática. E isso aumentava substancialmente o seu poder que era, acima de tudo, simbólico. A determinado momento, soube-se que a popular e desejada Diana era uma mulher traída pelo marido. E fez questão de divulgar isso através da televisão. É certo que escolheu a contida BBC, mas percebeu-se, ao longo da entrevista, o grau de encenação. "Somos três neste matrimónio e isso é uma multidão", confessou. A gestão do silêncio e a escolha do gesto facial não foram, decerto, por acaso.

Diana percebeu depressa o poder dos média. E procurou usá-lo, colocando-o ora ao serviço de meritórias causas, ora em benefício da gestão da vida pessoal que ia expondo de forma pouco contida. E foi aí que tudo correu mal. Colocando o privado em público, a princesa de Gales abriu uma caixa de Pandora que se fechou com a sua trágica morte. E isso hoje deve constituir-se como uma inesquecível lição para todos.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO