Opinião

Legionela, outra vez

A legionela voltou a atacar, mas desta vez num sítio inesperado: num hospital. Há precisamente três anos, a doença do legionário propagou-se a partir de uma empresa de fertilizantes de Vila Franca de Xira e, embora o foco infeccioso se tivesse circunscrito ao concelho, tratou-se do terceiro maior surto registado a nível mundial, classificado pela Organização Mundial de Saúde como "uma grande emergência de saúde pública". Passado este tempo, pouco se fez ao nível da legislação e nada aconteceu em relação à indemnização das vítimas. Os média também se desinteressaram do assunto. O que vai acontecer depois do caso do Hospital São Francisco Xavier?

Não se pode dizer que as entidades responsáveis tenham demorado a reagir. Ministério da Saúde, Direção-Geral da Saúde e Centro Hospitalar de Lisboa Oeste (que agrega os hospitais São Francisco Xavier e Egas Moniz) assumiram, desde o primeiro momento, a frente de informação sobre o que estava a acontecer. Foi assim também no surto de Vila Franca de Xira, embora aí se notasse um plano de comunicação mais eficaz graças à facilidade do então diretor-geral da Saúde Francisco George para gerir o que interessava dizer aos jornalistas. Desta vez, quem mais se salientou foi o ministro da Saúde que, neste tempo, assumiu que "alguma coisa correu mal". E não foi apenas dentro do hospital. Se a morte de duas pessoas infetadas por legionela dentro de uma unidade do Serviço Nacional de Saúde é intolerável, saber que a PSP interrompeu os velórios para levar esses corpos para autópsia estará ao nível do inverosímil. Mas possível. As explicações surgiram a seguir e, ao que parece, estarão relacionadas com uma falha de comunicação entre o hospital e o Ministério Público. Que nunca poderia ter acontecido.

Por estes dias, os média relatam o que está a acontecer no Hospital São Francisco Xavier e refletem algumas exigências ou promessas políticas para revisões legislativas que há muito deveriam ter sido feitas. Trata-se de um remake daquilo que aconteceu em 2014 em Vila Franca de Xira, com algumas variações. Nessa altura, os média deram um maior destaque ao surto que repentinamente se abateu sobre a população local e os políticos demonstraram maior indiferença em relação ao sucedido. Na verdade, a mediatização que aí se promoveu é um interessante caso de estudo. No exato momento em que se atingiu o clímax dos factos, ou seja, quando se organizou uma conferência de Imprensa para finalmente divulgar qual a empresa causadora de uma tragédia da qual resultaram 12 óbitos, os jornalistas criaram, a partir daí, outra onda noticiosa à volta da detenção e posterior prisão do ex-primeiro ministro José Sócrates. O terceiro maior surto registado a nível mundial desaparecia da agenda mediática como apareceu: subitamente. Poder-se-ia pensar que longe do olhar mediático haveria movimentações políticas para impedir a repetição deste tipo de casos e decisões judiciais para punir culpados e indemnizar vítimas. Passados três anos, percebe-se que pouco se fez. E custa a acreditar.

Se não surgirem novos casos, os episódios do São Francisco Xavier desaparecerão dos média noticiosos. E o mais provável é que deixem também de fazer parte das prioridades políticas e judiciais. E lá continuaremos a perpetuar a mesma inércia num país de cidadania de baixa intensidade em que apenas se reage de tempos a tempos perante uma súbita mediatização de determinada situação. Até poderia não ser esse um traço preocupante da nossa identidade coletiva, se as nossas instituições públicas se caracterizassem por uma responsabilidade social que procurasse repor equilíbrios e recompensar devidamente todo o tipo de prejuízos. Estamos ainda longe de uma sociedade assim. Neste contexto, os média assumem um papel fulcral na monitorização dos diferentes poderes públicos. É verdade que hoje as redações estão ainda submergidas numa crise económica que lhes subtrai todo o tipo de recursos e as impede de promover uma agenda diversificada e proativa, mas sem um posicionamento editorial mais crítico em relação aos poderes instituídos nada se resolverá.

* PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U. MINHO