Opinião

Marcelo, dois anos depois

Marcelo, dois anos depois

Dia 9 de março de 2016. A manhã era solene. Na escadaria da Assembleia da República, a passadeira vermelha estendia-se até onde potentes carros iam deixando ilustres convidados. A essa hora, em Belém, Aníbal Cavaco Silva despedia-se do mais alto cargo da nação, sendo depois conduzido, juntamente com a primeira-dama, por um motorista e por viaturas do seu corpo de seguranças até ao Parlamento. A cerca de cinco quilómetros dali, Marcelo Rebelo de Sousa saía sozinho de casa dos seus pais, onde dormira, para descer a pé a Calçada da Estrela em direção à Assembleia da República onde o aguardava a cerimónia da sua tomada de posse como 20.º Presidente de Portugal. Poderia ser estranho ver o futuro chefe da nação solitário, a pé, de sobretudo apertado e de mãos vazias, a caminho da sua própria investidura. Mas este homem, de sorriso fácil e de aceno espontâneo, chama-se Marcelo Rebelo de Sousa e este seu modo de ser próximo das pessoas, avesso a austeros protocolos, afetuoso nos gestos e direto das palavras, evidenciava-se como marca sua para inaugurar uma Presidência da República que haveria de encontrar nos portugueses a força que lhe permitirá fazer (quase) tudo.

Foram dois anos intensos. Neste tempo, Marcelo mudou o Palácio de Belém; amparou, mas também censurou o Governo; confundiu partidos políticos; intensificou a cumplicidade com os jornalistas; e teceu com os portugueses uma relação de afetos. O presidente da República não foi diferente do candidato Marcelo, mas exatamente por isso surpreendeu. Pela intensidade da sua agenda; pela proximidade às pessoas; pela capacidade de levar ao limite os poderes que a Constituição da República Portuguesa lhe confere; pela atenção aos poderes instituídos e às margens sociais. Poder-se-á aqui acrescentar que a sua ação beneficiou muitíssimo de um contexto político particular: um Governo minoritário, apoiado por partidos de Esquerda, que precisa também de jogar ao Centro.

De perfis algo semelhantes e com um prolongado conhecimento da personalidade um do outro, António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa são uma espécie de Dupont & Dupont. Um hiperotimista, outro hipertativo. Qualquer um deles sabe que precisa do outro. Por motivos diferentes. O presidente da República capitaliza espaço e popularidade face a um primeiro-ministro que lhe dá liberdade em campos que muitas vezes são do Governo, o PM encontra neste PR a Direita que a Assembleia da República lhe subtrai e um apoio para o seu trabalho. Nem sempre garantido, é certo, como aconteceu no caso dos incêndios.

Percorrendo estes dois anos do primeiro mandato de Marcelo Rebelo de Sousa, são vários os momentos a sublinhar: a primeira viagem ao estrangeiro, uma semana depois de tomar posse, escolhendo o Vaticano como primeiro destino; as várias edições do Portugal Próximo, que começou por um Alentejo algo desconhecido; a bandeira dos sem-abrigo agitada nas noites frias dos lugares escuros de Lisboa e do Porto; o elogio sincero a António Guterres, o amigo de uma juventude de causas sociais; a cumplicidade com António Costa sob um guarda-chuva protetor de uma inesperada e intensa chuva no primeiro 10 de junho comemorado em Paris; a dura comunicação ao país, a partir de Oliveira do Hospital, concelho onde morreram mais pessoas nos incêndios de 15 de outubro de 2017 durante a qual exigiu um "novo ciclo", precipitando a demissão da ministra da Administração Interna; e, claro, a solidariedade com os portugueses, nomeadamente com aqueles que sofrem e que necessitam de um olhar mais atento dos poderes da capital.

Nestes próximos anos, este PR não mudará a sua maneira de ser. No entanto, o contexto político passará por alterações significativas. Haverá eleições europeias e legislativas. Mais à Direita, Assunção Cristas tentará conquistar espaço ao PSD e Rui Rio procurará impor-se ao partido que não o quer e ao país que mudou o voto; à Esquerda, PCP, BE e Os Verdes lutarão por fazer vingar as suas identidades. E o PS e o Governo empenhar-se-ão em alargar a sua influência. Marcelo Rebelo de Sousa vai ter de fazer uma espécie de quadratura do círculo e, se quiser pensar num segundo mandato, terá de ponderar que presidente será em caso de uma maioria parlamentar. Há muitos cálculos para fazer...

*PROF. ASSOC. COM AGREGAÇÃO DA UMINHO