Opinião

Marcelo, o pacificador

Marcelo, o pacificador

O presidente da República que chega hoje ao Porto para prolongar a sua tomada de posse é o mesmo que, há uma semana, disse que "Portugal não é só Lisboa". É o mesmo que dispensou o motorista e foi a pé para a sua tomada de posse. É o mesmo que, anteontem à noite, se sentou na Praça do Município da capital de boné na cabeça e manta nos joelhos e assistiu divertido, ao lado de várias crianças, ao espetáculo que ofereceu aos portugueses. É o mesmo que fez um exemplar discurso de investidura onde refletiu um pensamento do ventre que tanto necessitamos de ouvir. Porque a política não se faz com verbo rígido e adjetivo empedernido.

O presidente certo no momento certo ou o homem certo no lugar certo. Eis como o presidente da Assembleia da República Portuguesa e o presidente da Comissão Europeia inesperadamente se encontraram na apreciação de Marcelo Rebelo de Sousa. Ele certamente que lhes ficou grato pela observação, mas a hora não é para conversas de caciques. Marcelo sabe disso melhor do que ninguém, porque hoje rasga um novo ciclo em Belém. O Palácio parece ter deixado de ser o lugar apenas visitado pelos do costume. Logo após a tomada de posse, o novo PR entrou ali sozinho. Do lado de fora, ao longe, ficaram, misturados com o povo, o irmão e os filhos. Porque Marcelo tem um imenso cuidado em separar a sua vida pública da sua esfera privada. Apesar de ele ser, acima de tudo, um homem de afetos. Parece um paradoxo. Não é.

Encontrando nestes anos Cavaco Silva em visitas oficiais em diferentes geografias, costumava observar pausadamente a barreira intransponível de seguranças que o rodeava e o imenso cortejo de carros de alta cilindrada que consigo fazia as deslocações. Perguntei-me vezes sem conta a quem serviria tal aparato que ironicamente era algo estranho a um Aníbal Cavaco Silva que chegara a Lisboa alheado das elites e dos ambientes de exuberância que alguns grupos gostam de exibir. Por isso, quando avistei Marcelo a descer apressado a calçada da Estrela rumo ao Parlamento vindo de casa de seus pais e acenando a quem com ele se cruzava, percebi que a mudança de que se falou em tempo de campanha eleitoral seria para tomar a sério. Ali estava a abertura para o tal novo ciclo. Com um homem que quer uma renovada agenda para o país. É preciso que "o poder económico se subordine ao poder político e não que este sirva de instrumento daquele", afirmou na tomada de posse Marcelo Rebelo de Sousa, o professor que sempre foi político e que anteontem trocou de lugar com outro professor que fez sempre questão de se apresentar como alguém oriundo do campo da economia. Curioso.

Marcelo Rebelo de Sousa tem múltiplos desafios. Na Assembleia da República, incitou os portugueses a acreditar mais em si próprios. O homem dos afetos lembrar-nos-á isso em permanência com palavras e gestos, mas não será fácil desviar o país da descrença em que se afundou. Prometeu fomentar uma distinta agenda, que respire através de outros campos para lá da pesada tematização das finanças que há tanto tempo nos asfixia, mas não será simples multiplicar focos de visão a quem se habituou a perspetivar tudo através do ângulo da austeridade. Garantiu solidariedade institucional indefetível à Assembleia da República, mas não será linear o caminho que o levará até aos aplausos das bancadas mais à esquerda que anteontem imobilizaram qualquer gesto de entusiasmo em direção ao novo presidente. Assegurou recriar convergências, mas construir simultaneamente pontes com o PSD e com o Governo de António Costa equivale a saber fazer a quadratura do círculo.

Não será, pois, um mandato pacato este que agora se inicia. Grande parte da avaliação do novo presidente da República será feita a partir da mediatização do seu trabalho. Marcelo Rebelo de Sousa é um profundo conhecedor das lógicas mediáticas e sabe, como ninguém, construir uma agenda que lhe seja favorável. Mas os meandros da comunicação abrem a todo o momento alçapões. Os da política também. São universos idênticos. Vamos lá ver se em Belém haverá capacidade para os antecipar. E neutralizar.