Opinião

Não ter medo

Os últimos atentados em Paris fazem do perigo não algo aleatório, mas permanente. Em qualquer lado, em qualquer momento, cada um de nós está vulnerável a um ataque terrorista. Ora, numa sociedade de risco, nunca como hoje se tornou imperioso não ceder a ameaças, não vergar ao pânico, não recuar perante a intimidação... Não ter medo é o que nos torna mais fortes perante os inimigos.

É de uma grande assertividade a capa da edição desta semana do "Charlie Hebdo". Num fundo vermelho, um jovem rapaz, com uma garrafa numa mão e um copo na outra, ensaia uma pose festiva. Do seu corpo esburacado, brotam jatos de espumante. No título, escreve-se "Eles têm armas. Que se lixem. Nós temos champanhe". Já depois dos atentados de 8 de janeiro, a mesma publicação satírica havia retomado o seu trabalho com uma edição exemplar. Num fundo verde, surgia a figura de Maomé, com uma lágrima no olho esquerdo, apresentando-se como Charlie e declarando que "tudo está perdoado". A manchete seria uma espécie de sussurro ao ouvido de cada um de nós, que ficava ali a ecoar com uma enorme sonoridade.

Paralelamente a uma informação que nos coloca no centro daquilo que importa saber, os média, em situações como esta, cumprem outra função: a de nos restituir algum equilíbrio quando tudo está em acelerado descontrolo. No dia a seguir aos atentados, o jornal "Libération" fez uma edição especial com a primeira página pintada a negro onde foram colocadas rosas vermelhas no canto inferior esquerdo. Na véspera do jogo amigável Inglaterra-França, o periódico desportivo "Mirror Sport" punha a letra do hino francês na primeira página. Aliás, La Marseillaise havia sido entoada já no sábado em várias cidades pelo Mundo fora, constituindo esse emotivo cântico uma espécie de cola que nos ataria uns com os outros numa solidariedade tal que nenhum terrorista seria capaz de destruir.

Acompanhando os recentes acontecimentos através dos média, não temos sido confrontados com o choque de imagens que destapem impiedosamente a morte. Não é por acaso. Os jornalistas têm tido um assinalável cuidado em relação àquilo que mostram. Muito do que aconteceu tem permanecido inacessível ao olhar. Não assistimos à entrada de forças policiais no Bataclan, não vimos muitos corpos das vítimas mortais ("Le Parisien" e "Daily News" serão aqui exceções), não acompanhámos de perto a operação da Polícia em Saint-Denis. Também não precisamos disso. Chega-nos o relato jornalístico. Chega-nos a contagem daqueles que morreram. Chega-nos ouvir os testemunhos dos que sobreviveram. Chega-nos conhecer a vulnerabilidade da nossa vida de todos os dias. Chega-nos isso para sentir um enorme desassossego. Chega-nos isso para viver com uma inevitável intranquilidade. Mas é exatamente nesse sobressalto que deveremos ganhar força para renascer. Em editorial, o diretor da revista francesa "L"Express" escrevia esta semana que o tempo do luto deverá ser aqui o mais curto possível. É imprescindível passar à frente.

Nestes acontecimentos, há também uma dimensão política que importa não desvalorizar. A 6 de dezembro, a França realiza eleições regionais e a Frente Nacional tem demonstrado uma progressiva força na preferência dos eleitores. Em queda descendente, François Hollande e os socialistas renascem por estes dias para uma opinião pública vulnerável a uma proteção que o presidente da República não tem desbaratado. Desta vez, o registo tornou-se mais forte e ameaçador. Presidente e primeiro-ministro franceses uniram-se para falar em "guerra" e é assim que os atentados têm sido interpretados nos palcos da geopolítica mundial. Nos próximos dias, continuaremos a ver Hollande e Valls a desdobrarem-se em declarações e aparições públicas. Mais do que uma ação concertada, joga-se entre eles uma disputa por uma liderança que cada um quer reivindicar para si.

São tempos duros, estes que temos pela frente. Tempos de instabilidade. Tempos de mudança. Que exigem mais de nós. Que impõem mais coragem, mais ousadia, mais determinação. Como escreve esta semana na capa a revista alemã "Der Spiegel", "vocês querem que eu tenha medo? Esqueçam!".