Opinião

Ninguém se preocupa com os donativos de Pedrógão?

Ninguém se preocupa com os donativos de Pedrógão?

O discurso jornalístico assume-se, muitas vezes, como um meta-acontecimento, ou seja, como espaço privilegiado para gerar novos factos. Esta semana, o caso que envolveu Ricardo Robles, vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa, é um excelente exemplo do poder do jornalismo para alterar a realidade. No fim de semana, pensei que uma outra notícia teria capacidade para provocar reações em espiral que dotassem o real de uma outra configuração. Refiro-me ao texto publicado na última edição do "Expresso" que reportava que, um ano depois dos incêndios de Pedrógão, há muito dinheiro por distribuir. Fiquei chocada. Mas o país não ficou. E isso indignou-me muito.

O artigo noticioso vinha paginado em duas extensas colunas, cortado por uma bem dimensionada fotografia que, sob um fundo preto, mostrava uma casa de família completamente destruída. O relato impressionava, porque remetia para aquilo que consideramos inverosímil, mas infelizmente possível. Escrevia-se que o município de Pedrógão guarda 345 295,04 euros e que espera até agora orientações do Governo para os aplicar. Por isso, nada foi gasto. Também se acrescenta que, para além desta verba, houve contas solidárias que foram abertas para ajudar quem mais precisa, mas, ao que parece, ninguém sabe dizer onde está esse dinheiro. Sobre as doações feitas, diz-se pouco. E ainda menos se esclarece sobre a aplicação de outras cuja existência se reconhece, mas o destino se omite. Outro dos mistérios sublinhados no artigo jornalístico tem a ver com o conteúdo de 19 camiões que uma empresa nacional enviou para Pedrógão, mas que terão sido desviados para outra região por incapacidade para receber esses bens. Lendo o extenso artigo e olhando para esses territórios destruídos através das imagens que os média vão refletindo, há duas perguntas que emergem: como é possível acontecer isto? Quem responde por tantas (in)decisões?

Pensava eu que o texto em forma de notícia teria poder para indignar muita gente, nomeadamente os partidos políticos que, normalmente, acertam o seu ritmo por aquele que os média fixam. Enganei-me. E fiquei muito surpreendida com isso. Porque é preciso levar certas entidades a dar explicações. Por exemplo, a Câmara Municipal de Pedrógão e o Ministério da Administração Interna, entre outras. Por seu lado, o presidente da República não pode fazer de conta que não conhece estes problemas. Marcelo Rebelo de Sousa foi quem mais se envolveu na solidariedade às vítimas dos incêndios. Ele próprio já anunciou que irá passar alguns dias das suas férias de verão nos concelhos mais destruídos pelos fogos. Aí está uma excelente oportunidade para falar destas falhas e procurar resolvê-las. No terreno, o PR deve procurar ativamente respostas para estas ajudas que (ainda) não chegaram a quem mais precisa. Os média noticiosos também não podem largar esta tematização. Que tem uma colossal relevância pública.

Há um ano, o país mobilizou-se para ajudar a erguer Pedrógão. Passado o verão, haveria de unir-se novamente por causa dos incêndios de outubro. Houve muito dinheiro recolhido, fizeram-se várias doações. Agora é preciso prestar contas por aquilo que se fez. E explicar as razões da inércia registada. Que até poderia ser desculpável, se não estivéssemos a falar de vítimas que perderam tudo. Muitas dessas pessoas viram partir aqueles que mais amam. Essa gente precisa de amparo. No momento certo, os portugueses não viraram costas. Pelo contrário. Então não se percebe porque essa ajuda não chegou a quem se destinava. Estamos aqui perante factos de uma enorme gravidade que precisam de ser esclarecidos e, acima de tudo, resolvidos. Depressa.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA U. MINHO

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