Opinião

Notícias positivas

O presidente da República gosta de boas novas, mesmo sabendo que o campo onde se move é fecundo em "más notícias", declinadas por boatos, discordâncias, desvios de rota... Não é apenas a política que produz factos disruptivos. É o real que nos estrutura que se apresenta como um lugar inconstante, cheio de pérfidas surpresas. Os média noticiosos mais não são do que um reflexo disso, ainda que muitos atores sejam hábeis em transfigurar o que acontece a seu favor.

Foi na inauguração da nova sede da Banda dos Bombeiros Voluntários de Colares, na quarta-feira, que Marcelo Rebelo de Sousa se referiu às notícias más e à arte de as transformar em notícias positivas. Pelos média, pouco mais conhecemos do que essa referência à imprescindibilidade de transformar o mau em bom. No entanto, o PR poderia dar uma extensa e detalhada lição acerca do modo de falar entusiasticamente de uma realidade nem sempre ajustada a ângulos favoráveis. E como percebemos ao longo dos últimos meses, com resultados positivos, na medida em que o país de austeridade que fomos parece ter dado lugar a uma nação esperançada num futuro menos severo. Aqui está o exemplo inequívoco de que os discursos moldam permanentemente a realidade que procuram definir ou explicar. E lá vão provocando textos noticiosos favoráveis às elites do poder, aqueles mais presentes nos alinhamentos noticiosos.

Todavia, nem sempre o Mundo cabe nos enunciados que dele construímos. Vejamos o que se passou nos Estados Unidos onde, ao longo deste ano, a realidade discursiva investiu tudo em descredibilizar Donald Trump sem, com isso, provocar qualquer efeito do real. Isto significa que os resultados da comunicação que promovemos não são lineares. Nesse processo, interferem inúmeras variáveis que vão labirintando as mais cuidadosas estratégias de comunicação que frequentemente se revelam incapazes de auscultar o que pensam aqueles que decidem: os cidadãos. E aí está como o discurso pode esbarrar ruidosamente com o real e assim tornar inviável qualquer enfoque noticioso positivo.

Depois há ainda aquelas situações de extrema violência que nenhuma palavra consegue espelhar. Face a um real excessivo, talvez a opção pelo silêncio seja a melhor forma de conquistar o equilíbrio possível. Foi isso que a Alemanha procurou fazer desde o primeiro momento, após o terrífico atentado numa das feiras de Natal de Berlim. Por estes dias, o jornal "Berliner Morgenpost" titulava, sob um fundo preto: "Não tenhais medo". A citação do Evangelho de São Lucas é aqui uma forma de estancar o natural temor que os alemães (e o Mundo) sentem perante atrocidades desta natureza, que se prolongam no tempo pelas feridas que nunca saram e por um discurso noticioso que vai atualizando a dor, mesmo quando a procura minimizar. No meio de um real tão descontrolado, não é possível abrir espaço para notícias positivas.

Mas há acontecimentos negativos que se revelam oportunidades para promissores recomeços. A este nível, o "Jornal de Notícias" protagonizou esta semana um exemplo assim. Ao noticiar o caso de Armando Sousa, cuja filha de dois anos foi mandada para adoção pelo Tribunal de Família do Porto, porque o pai está no desemprego e vive num quarto de pensão, a Redação do JN mobilizou a atenção de muitos leitores. Um deles ofereceu uma possibilidade de emprego e um outro disponibilizou-se para transferir da sua conta 500 euros mensais, durante meio ano, a fim de ajudar a recompor uma rotina adequada a um pai que se propõe criar sozinho a sua filha. E aí está como uma notícia má se converteu em algo bom. Não seria bem nisso que o presidente da República estaria a pensar quando anteontem falou na arte de transformar notícias, mas há aqui um traço comum que convém salientar.

Nesse processo de reconversão de acontecimentos maus em bons, aqueles a quem a mensagem é dirigida devem estar disponíveis para aceitar protocolos de leitura que os aproximem da realidade de forma otimista. É isso que faz toda a diferença. E se há contextos favoráveis para que integremos o que nos é dito num modo confiante de olhar para a realidade, este que agora abrimos é um dos mais intensos. Que o Natal seja, na verdade, esse tempo de acreditar num verdadeiro renascimento. Que nos anime no ano que estamos quase a abrir.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO