Opinião

Nova carta a um universitário

Nova carta a um universitário

Escrevi-te há dois anos, eras tu um jovem caloiro, cheio de expectativas, próprias de quem chega ao Ensino Superior, mas carregando igualmente alguns temores, frente a uma praxe que tu sabias que poderia ser violenta. Agora, já no terceiro ano, és finalista de uma licenciatura que se faz depressa demais e pertences também a um grupo que lidera o acolhimento aos mais novos. É em ti que confio para consolidares uma marca de qualidade do Ensino Superior e para ajudares a combater práticas abjetas que se multiplicam por vários campi universitários.

A partir de agora, um pouco por todo o país, universidades e politécnicos enchem-se de estudantes. Tu serás um no meio de muitos, mas acredita que podes contribuir muito para a mudança, conceito que, em tempo de pré-campanha eleitoral, se vulgarizou. Mas centremo-nos no essencial que, para um estudante, se deve construir em torno das aulas. Nos próximos dias, os professores preenchem os tempos letivos com apresentações de programas curriculares. Não será esse um momento inexpressivo do calendário escolar. Eis o tempo de reacertar ritmos, fixar prioridades, criar objetivos. Tens pela frente o último ano de uma licenciatura que te posiciona no mercado de trabalho. Aproveita bem os conhecimentos transmitidos pelos professores e, mais importante, edifica o teu próprio caminho. Desenvolve um curriculum paralelo que te proporcione outras práticas. A melhor forma de gerir o tempo é ter pouco tempo. Aproveita-se tudo melhor. Vai, aceita desafios, cria oportunidades...

Eu sei que, por estes dias, as conversas não se fazem a partir das matérias, mas das estórias das férias, dos reencontros e dos novos colegas. Estás no terceiro ano. A tradição académica diz que o teu grupo se encarregará de acompanhar os caloiros. É um privilégio. Olhados a partir do teu percurso académico, eles parecem-te demasiado ingénuos. Mas, se pensares bem, o intervalo que deles te separa não é assim tão expressivo. São apenas mais novos do que tu dois anos, mas essa diferença posiciona-te para seres uma espécie de porto de abrigo À tua frente, estarão estudantes muito diferentes, ainda que todos te pareçam semelhantes. Não o são. Há os que chegam de longe e se confrontem com a experiência de viver numa nova e desconhecida cidade e há aqueles que continuam a ter os mesmos hábitos de sempre; há os extrovertidos e os que se atormentam com convívios forçados; há os que procuram novos ambientes e os que resistem à mudança... E, no meio de tudo isto, há ainda as praxes. Que tens a obrigação de combater.

Já não acredito, confesso, que aqueles que gerem as instituições académicas sejam capazes de neutralizar as praxes. Hoje um reitor é eleito por um conselho geral onde os estudantes assumem muitas vezes um voto decisivo. E ninguém quer desbaratar esses apoios com discursos que desagradem às associações académicas ou aos alunos próximos dessas estruturas. Mas tu sabes, melhor do que eu, que os chamados praxistas representam um grupo minoritário, apesar de ser muito visível e alguns dos seus elementos se moverem em círculos muito próximos da hierarquia de uma universidade. Por isso, serão fáceis de neutralizar.

Ontem, o "Jornal de Notícias" anunciava que "duplicam queixas de praxes abusivas". Ainda bem que há coragem para denunciar os excessos, mas todos sabemos que ainda são muito poucos aqueles que ousam fazer isso. Por seu lado, o "Público" fazia eco de um texto distribuído por estudantes da Universidade do Porto onde se escrevia que "o caloiro é incondicionalmente servil, obediente e resignado". Recorde-se que, em 2014, morreram três estudantes da Universidade do Minho durante uma praxe. No ano anterior, tinham morrido seis estudantes da Universidade Lusófona. O que fazer àqueles que continuam a promover práticas tão abjetas? Faz sentido andar a gritar palavrões em espaços públicos? Que cidadãos são estes que se relacionam com os seus colegas mais novos através de gestos tão reprováveis?

Se pensares bem, terás tanta vergonha como eu de tudo isto, não é? Então, vamos agir. Todos juntos vamos combater, de uma vez por todas, esta prática ignóbil chamada praxe?

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO