Opinião

O Algarve das obras

Quem visita Portugal terá muita dificuldade em perceber por que razão os locais mais turísticos se afundam em obras nas épocas que recebem mais turistas. Os portugueses também não compreendem isso. E não haverá, decerto, muitas explicações aceitáveis.

Por estes dias, o Algarve multiplicará por dois dígitos a população habitual. Aos portugueses que este ano apostaram mais no Sul, juntam-se numerosos estrangeiros vindos de todo o lado. Inquestionavelmente o Sul do nosso país é um destino atrativo para muitos, mas essa sedução declina-se, em muitos casos, por características naturais. Aqui e ali, ainda se descobrem falhas que, nesta altura, serão já inadmissíveis.

Uma das zonas para onde confluem mais pessoas será Vilamoura. Ora, quem frequenta aí as praias viu dificultado o acesso ao areal num dos locais com mais hotéis, dois deles de cinco estrelas. Agora, entre uma das maiores unidades hoteleiras e a praia, erguem-se elevações de terra denunciando (inexplicáveis) obras em curso sem que se descubram aí pessoas a trabalhar. Aparentemente, a empreitada parece estar parada, causando enormes transtornos aos veraneantes. Ir à praia nesta zona implica avançar por um improvisado caminho que contorna um bar-restaurante que inesperadamente ficou isolado. Os prejuízos serão facilmente calculados. Mas o mais perturbante é a imagem que devolvemos a quem nos visita oriundo de outras geografias. O lugar que se apresenta como uma referência no Algarve ousa estragar uma parte substancial do acesso ao areal nas semanas em que recebe mais pessoas, com uma obra que nem sequer pode ser justificada com a proteção da erosão marítima.

Se a opção for por Tavira, não será muito recomendável esperar por um horário menos escaldante e aventurar-se de carro por Pedras d"el Rei. É verdade que a paisagem que envolve a praia do Barril é deslumbrante. Torna-se inquestionável a beleza do comboio turístico que, a baixa velocidade, vai furando por entre um riquíssimo sistema dunar. Mas a viagem perde todo o encantamento antes de começar. Estacionar o carro converte-se rapidamente num inferno devido a obras que, nesta altura, se fazem para a reconstrução de um estacionamento que se ordena em paralelo com a praia. Não haverá argumento melhor para levar o carro à lavagem do que uns escassos minutos de circulação aí. O pó acumula-se na exata proporção da irritação do automobilista.

Nesta altura, poder-se-á pensar que será mais avisado virar de direção e rumar para sudoeste. A Via do Infante ajuda a tornar a viagem mais célere. Mas também será aconselhável não somar o dinheiro que cada pórtico vai exigindo a quem por lá circula...

Para os mais poupados, a 125 poderá ser uma alternativa, mas aí há que reforçar bem a paciência. As obras multiplicam-se por todo o lado. Quem sai de Lagos a caminho de Sagres é desviado uns bons quilómetros da estrada nacional, encontrando no GPS a salvação para reacertar o rumo. Na viagem de regresso, mesmo sem querer, os automobilistas rapidamente são atirados para a praia da Luz e a partir daí o melhor será tirar partido da paisagem e esquecer o relógio.

É certo que, em tempo de férias, estaremos mais tolerantes em relação às falhas, mas seria importante que as entidades a quem compete a gestão do território gastassem mais tempo com estes "pormenores". Uma parte do país que faz do turismo, nomeadamente das praias, um dos seus principais ativos não pode apresentar-se, em certas zonas, como uma espécie de contentor, principalmente em épocas em que recebe mais turistas. Obras em curso não são um sinal de progresso. Antes, constituem um forte indício de ausência de planeamento e de uma ideia de turismo própria de um país subdesenvolvido.

É verdade que hoje o Algarve tem mais qualidade: do ponto de vista urbanístico, na oferta hoteleira, nos diversos serviços que presta... Mas é preciso fazer mais para que o Sul seja uma marca distintiva de um turismo que Portugal poderá vender como um dos produtos mais competitivos da nossa economia.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO