Opinião

O cinismo britânico

Não é fácil seguir os políticos britânicos nos tempos que correm. Eles próprios, em certos momentos, terão certamente dificuldade em conviver com o que fazem. O que se passa hoje no Reino Unido é do domínio do inverosímil. Garante-se que a decisão de abandonar a Europa é já irreversível. Pode não ser. Mas agora isso não importa muito. Porque o que interessa mesmo é garantir carreiras políticas. Uma vergonha.

Quando nas eleições de 2015 David Cameron inscreveu no seu programa eleitoral um referendo para saber se os britânicos queriam permanecer na União Europeia, o líder dos conservadores não estava preocupado com o seu país. Estava centrado em satisfazer a ala mais eurocética do seu partido e em conquistar mais votos para assegurar uma maioria absoluta que o fizesse entrar sem preocupação no número 10 de Downing Street. O referendo estava lá longe, lá para 2016, o que, em política, é uma eternidade. Acontece que o tempo corre depressa e, chegada a data, o primeiro-ministro britânico viu-se obrigado a cumprir o que prometera. E terá feito o exercício habitual daqueles que ocupam o poder e que julgam que os cargos lhes permitem fazer (quase) tudo. Enganou-se. Confrontado com os duros resultados de 23 de junho, esperar-se-ia que David Cameron acionasse o artigo 50 do Tratado de Lisboa e saísse de cena o mais rápido possível. Nem uma coisa, nem outra. Porque há cálculos políticos para pôr em marcha. O interesse nacional pode esperar.

O ainda primeiro-ministro britânico não quer ficar na história como o político que colocou o país fora da Europa. Deixa essa tarefa para o seu sucessor. Também não tem vontade de ir já embora, porque há contas para ajustar. Parece ainda empenhado em permitir que os mercados se deteriorem, semear o descontentamento no país, fomentar guerras fratricidas no interior do seu partido e, pelo caminho, abrir brechas nos trabalhistas. Cameron sabe bem que apenas o Labour, o partido que sempre combateu, o pode vingar. Mas para isso precisa de ganhar as eleições, algo improvável com a atual direção.

O líder do partido trabalhista, Jeremy Corbyn é, por estes dias, um resistente. Perante os resultados do referendo, metade do seu governo sombra demitiu-se e três quartos dos seus deputados optaram, através de uma moção, por lhe retirar a confiança. Nada que o fizesse anunciar a demissão. Anteontem, no Parlamento, o primeiro-ministro conservador disse-lhe: "Por amor de Deus, homem, vá-se embora". Os mais inocentes vêm nisto uma tirada própria do duelo parlamentar, mas neste suspiro Cameron pode transportar todo um projeto político cuja execução deixa para os adversários. Vejamos então este cenário: elegendo o partido trabalhista um líder mais ao centro que, nas próximas eleições, inscreva no seu programa a manutenção do Reino Unido na União Europeia, e obtendo a maioria absoluta, que margem haverá para fazer acionar o artigo 50 do Tratado de Lisboa? É certamente nisto que Cameron pensa e é também por aqui que o partido trabalhista pode atuar para conquistar o poder. Para isso, precisa de outro comando, mais europeísta (Corbyn pertence a uma ala eurocética), mais carismático, mais imune a críticas, mais unificador do partido, nomeadamente de uma elite que ambiciona cargos.

Do lado dos conservadores, Boris Johnson anunciou ontem que não é candidato à liderança do seu partido. Horas antes, o seu (ex) amigo Michael Gove, o mesmo que havia traído Cameron, antecipava-se na corrida, desqualificando o ex-mayor de Londres. No dia anterior, um mail da sua mulher tornado público era ainda mais cáustico para Johnson. Quem com ferros mata... Na corrida há já vários candidatos onde também sobressai a titular pela pasta do Interior, Theresa May. A disputa promete ser fratricida. E como na política nada é adquirido, não é garantido que sejam os conservadores a conduzir o processo de saída do Reino Unido da União Europeia. Os próximos tempos serão certamente surpreendentes.