Opinião

O dever de (não) ver

As imagens que o jornalismo adota suscitam, com frequência, discussões inflamadas. Ora porque não captam o ângulo que merecia ser fixado; ora porque, retendo-o, podem ser demasiado excessivas no sentido que transportam. Com forte poder de significação, as imagens fixas ou em movimento têm uma enorme centralidade na mensagem que se constrói e nem sempre merecem a reflexão que se impõe. Os últimos dias deixam exemplos contraditórios.

Sob um fundo preto, o jornal francês "Libération" fazia ontem capa com corpos nus de meninos mortos, sob o título: "As crianças de Assad". Olhamos esta terrível capa e petrificamos de horror. É exatamente este olhar perturbado em direção a um indizível sofrimento dos outros que a fotografia procura. E consegue-o. Nas redes sociais, as opiniões sobre as imagens do ataque químico na Síria, que provocou mais de 80 mortos, dividem-se entre aqueles que falam de um sensacionalismo que deveria ser evitado ou do realismo de um drama que exige ser testemunhado. Neste caso, integro-me no segundo grupo. Precisamos de imagens que espelhem o terror que se vive num território há demasiado tempo fustigado por uma guerra comandada ao longe por desencontrados interesses geoestratégicos.

A fotografia das crianças mortas na Síria tem o poder de nos desinquietar profundamente. Tal como nos perturbou intensamente o corpo sem vida de Alan Kurdi, o menino refugiado sírio de três anos que, a 2 de setembro de 2015, deu à costa numa praia turca. Podemos afirmar que a divulgação desta imagem não neutralizou a tragédia. Um ano depois da morte de Alan, os média noticiavam que mais de 400 crianças morreram quando tentavam chegar à Europa numa guerra que parece não ter fim. Todavia, é graças a estas imagens que, aqui e ali, há mobilizações mais intensas e musculadas que procuram soluções. Não conhecemos muito daquilo que se passa na Síria. Ouvimos, vezes sem conta, políticos que, em diferentes lugares, nos falam desse drama, mas faltam-nos relatos de pessoas que o vivem por dentro. Precisamos de sentir o vivido, mesmo que isso seja demasiado perturbador. E se, em determinados momentos, o que vemos parece excessivo, não culpemos as imagens. Centremo-nos, antes, na referencialidade que elas refletem. Para que a mudança seja possível.

Por estes dias, dentro de portas, também discutimos imagens. Neste caso, em movimento. Refiro-me ao vídeo que mostra a agressão de um jogador do Canelas ao árbitro José Rodrigues. Neste contexto, um jornalista perguntava-me esta semana se a atual atenção que os média noticiosos atribuem ao futebol não propicia estes comportamentos. É claro que há demasiada fleuma no debate que os meios de Comunicação Social promovem à volta das quatro linhas, mas não podemos confundir campos. A atual violência que caracteriza o futebol deve, antes de tudo, ser desconstruída a partir daquilo que se passa dentro dos clubes, nomeadamente na linguagem bélica que alguns dirigentes adotam e na organização agressiva que as claques exibem. Culpar o mensageiro é desviar-nos do essencial do que importa reter.

Neste tempo, há um caso que merece outra reflexão sobre o modo como o discurso jornalístico construiu uma noticiabilidade que continua a impor-se. Falo do surto da hepatite A. É certo que as autoridades sanitárias comunicaram este caso encostando-o demasiado a comportamentos sexuais de risco entre homens, mas também é verdade que os média trataram de exacerbar essa identificação. E isso aconteceu, acima de tudo, nas opções de ilustração das notícias onde reiteradamente se escolheram imagens de homens em posições cúmplices uns com os outros. E aí a mensagem a passar tornou-se clara, para além do estigma que se foi adensando em torno deste grupo social. Passados uns dias, procurou-se ajustar a comunicação para sublinhar que ninguém estaria imune à doença. Ainda ontem os média noticiavam que a maioria das 12 mil vacinas para a hepatite A em stock serão destinadas a crianças. No entanto, as imagens já fixaram a mensagem. Distorcida, é um facto. Porque uma imagem vale sempre mais do que mil palavras que possam ser depois acrescentadas.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO