Opinião

O direito de (não) ler

O direito de (não) ler

Nem sempre conseguimos explicar o nosso amor pelos livros. Gostamos deles. De os ter próximos de nós. Para relembrar uma frase, para espreitar um capítulo ou para os (re)ler da primeira à ultima página. Há quem continue a preferir folhear o papel, há quem não tenha resistido ao formato eletrónico. Não se fala muito da paixão de ler. É um mau hábito.

Há muitos anos, cruzei-me com um livro que nunca abandonei. Não se pode dizer que "Como um romance", de Daniel Pennac, seja um excecional ensaio para quem se aventura pela teorização literária, mas é verdade que se constitui como uma obra inesquecível para quem é avesso a rígidos protocolos de leitura. Ao fixar aquilo que designou como "direitos inalienáveis do leitor", Pennac ajudou-me a perceber o meu poder quando confrontada com um texto. A abrir a lista, estipula-se "o direito de não ler". Lembro-me de ter parado estupefacta logo nessa primeira alínea que, na altura, me pareceu estar entre uma descarada provocação e uma irresistível sedução. Da enumeração, continuo a apreciar os direitos de saltar páginas, de reler, de ler em qualquer lugar e de ler em voz alta. Confesso que me abeirei deste último direito com mais intensidade neste último ano, percebendo melhor o fascínio que a leitura em voz alta pode ter numa criança. Não se trata aqui de um exercício simples. Ler em voz alta implica exposição, exige improviso, reclama envolvimento. E eis-nos, de repente, metamorfoseados com o autor, recriando uma história que forçosamente vai adquirindo outras significações.

É formidável aquilo que um livro nos permite fazer. Desde que o percebamos. E gostemos dele. Ora, é precisamente esta relação de cumplicidade o mais difícil de urdir nestes tempos apressados que são os nossos. Porque o livro pede-nos tempo. Que tanto (nos) escasseia. Todavia, há sempre intervalos onde a leitura cabe, se disso fizermos uma prioridade na vida de todos os dias. Por isso, são sempre profícuas todas as chamadas de atenção para a importância da leitura. Esta semana, cruzei-me com duas.

Sem agenda para estar presente na abertura oficial da Feira do Livro de Lisboa, que decorreu ontem, o presidente da República fez na véspera uma visita ao local e comprou livros. Uma dúzia. Pelas televisões, vimo-lo folhear várias publicações nos stands por onde passou. No final prometeu que regressaria ali as vezes necessárias para esta feira chegar a um milhão de visitantes. É magnífico este impulso que Marcelo Rebelo de Sousa sempre deu à leitura.

Também esta semana a revista "Time" publica uma entrevista a Bill Gates a propósito da sua paixão pelos livros. "A leitura alimenta uma sensação de curiosidade sobre o Mundo", declara o fundador da Microsoft para quem a qualidade do seu trabalho tem sido muito influenciada pelas leituras que vai fazendo. Diz que foi sempre muito marcado pelos livros que encontrou. Pelos bons e pelos maus. Confessa demorar mais com estes últimos que lhe exigem frequentemente muitas notas que vai escrevinhando nas margens das folhas de papel, numa leitura que ainda resiste a um ecrã eletrónico. Aí está um direito que Pennac não ponderou: o direito de reescrever uma obra.

Quem trabalha nos diversos graus do ensino, confronta-se diariamente com a colossal dificuldade de incentivar os estudantes a ler. Os alunos não apreciam os livros. Na universidade, sei que constitui necessário um gigantesco esforço levar um grupo a ler uma obra. Apenas uma. Pode ser em papel ou em formato digital. Pode ser uma obra inteira ou apenas capítulos. O mais importante é incentivar os mais novos a criar alguma vontade para abrir um livro e ir lendo à procura de significados para aquilo que procuram.

Nas próximas semanas, as edições das tradicionais feiras do livro multiplicam-se por todo o lado, normalmente acompanhadas de um programa de conferências. Normalmente são iniciativas que se dirigem aos já convertidos à leitura. Precisamos aqui de impor uma outra marca para estas feiras. Criar outros formatos. Mais modernos, mais criativos, mais apelativos. Ler precisa de estar na moda. Principalmente entre os mais novos. E para isso há ainda muito para fazer.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO