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Opinião

O estado da naçãoe os média

O estado da naçãoe os média

Hoje é dia de debate do estado da nação na Assembleia da República. Mais do que aquilo que será dito no hemiciclo, valerá, acima de tudo, a mensagem que Governo e bancadas parlamentares conseguirão transmitir através dos jornalistas. Porque atualmente a política é, sobretudo, a arte de saber colocar o poder em cena. No Parlamento ninguém ignora isso.

Apresentar os resultados da governação não será propriamente um exercício difícil para o primeiro-ministro. Globalmente, a ação política não tem corrido mal ao Governo. É certo que, nas últimas semanas, os setores da saúde e da educação não têm andado propriamente sossegados, mas António Costa procurará desviar-se dessas questões para falar daquilo que lhe será mais favorável. E trará, decerto, números para documentar aquilo que é o eixo estruturante do seu discurso: o país está melhor. Porque respira longe de discursos que coloquem a austeridade na ordem do dia. Mas isso já não é notícia. Se se quiser evidenciar, o chefe do Executivo tem de apresentar dados novos e neutralizar quem está ali para o ataque (todos, exceto a bancada do PS) ou surpreender quem procura factos disruptivos (os jornalistas).

PCP, BE e PEV tentarão criar alguma distância em relação ao Governo e demarcarem-se uns em relação aos outros. É este o atual problema da Esquerda: reivindicar traços distintivos sem partir a corda que coloque em causa os acordos feitos no início da legislatura. Não será esse um exercício simples, mas todos vão fazer um enorme esforço em executá-lo da melhor maneira a fim de conquistar o maior destaque no espaço mediático. É isso que importa. Transmitir, através dos média, a ideia de uma identidade que assegure a fidelidade do respetivo eleitorado. É esse efeito do real que mais interessa provocar nos noticiários.

Mais à Direita, o CDS é quem se sente mais livre para fazer render o tempo de antena mediático, que Assunção Cristas sabe bem capitalizar. Ao seu lado, os sociais-democratas estarão divididos entre o ataque ao Governo e a defesa dos reparos que a Direção do partido tem feito chegar a uma bancada desalinhada com quem manda no atual PSD. Assim, não será fácil conquistar relevância ou garantir ângulos positivos no discurso jornalístico. Essa fragilidade é bem conhecida de todos e é isso que importa esconder.

Para além daquilo que hoje se disser, haverá sempre um elefante de tamanho colossal dentro do Parlamento: o próximo Orçamento do Estado. Por razões diferentes, nenhum partido quererá disputar o ónus de uma votação negativa desse documento. Mas também todos sabem que não podem estar muito colados à proposta final que será sempre da responsabilidade do Governo. Os jornalistas estarão com a máxima atenção a esse "frame". Por isso, todas as intervenções devem ser bem calculadas. Com a devida antecedência.

Se tudo correr bem, governantes e parlamentares iniciam hoje alguma descompressão rumo a um período de férias, mas ninguém sabe a temperatura (política) que estes meses de verão poderão atingir. Também será difícil prever as movimentações do presidente da República, o qual, à semelhança dos anos anteriores, não deverá ficar muitos dias completamente dedicado ao ócio. E isso não descansará nenhum partido.

Neste contexto, o debate do estado da nação não abrirá hoje as portas à tradicional "silly season". Esse tempo acabou. Principalmente numa conjuntura em que tudo está em equilíbrio precário e os média noticiosos se transformaram em importantes atores políticos.

PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO

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