Opinião

O futebol e os média

O futebol é, sobretudo, emoção e a respetiva cobertura jornalística declina-se obrigatoriamente num registo atravessado por marcas emocionais. Quer no discurso noticioso, quer no domínio da opinião. Acontece que se ultrapassaram já os limites daquilo que é possível dizer no espaço público (mediático). Os dirigentes desportivos incitam os adeptos à revolta contra os jornalistas, nos estúdios televisivos os comentadores gritam palavras insultuosas contra os adversários. Os média poderiam ajudar a travar esta guerrilha: paravam os intermináveis diretos com os clubes e impunham uma continência verbal nos plateaux futebolísticos. Porque nos meios noticiosos devem mandar os jornalistas. Não os dirigentes desportivos, ainda que o poder que estes agora sustentam seja, em parte, uma concessão dos órgãos de Comunicação Social.

A SIC conseguiu, em outubro de 1992, os direitos de transmissão de três desafios que reuniam os três maiores clubes do futebol português. Essa era uma excelente oportunidade para fazer descolar as audiências num quadro de clara hegemonia do canal generalista público. Havia, pois, que prolongar os efeitos dos jogos o mais tempo possível. Ora fazendo antevisões, ora fazendo balanços. Foi neste contexto que nasceu a ideia de criar um formato de discussão do futebol com os presidentes destes três clubes de futebol. Assim, a 18 de outubro de 1992, surgiu "Os donos da bola", que contava no plateau da discussão com os dirigentes do Sporting (Sousa Cintra), do Benfica (Gaspar Ramos) e do F. C. Porto (Pinto da Costa). A emissão foi bastante polémica, a tal ponto que aqueles que a protagonizaram se mostraram indisponíveis para repetir a experiência, apesar da insistência dos responsáveis da SIC. No tempo em que se tentou recuperar a ideia de fazer entrar em estúdio os dirigentes dos três maiores clubes, "Os donos da bola" foi procurando soluções para um formato que as audiências seguiam com interesse. Primeiro converteu-o num noticiário; depois num quente debate que abria, nos serões de sexta-feira, um fim de semana desportivo preenchido de muita polémica. Estava encontrada uma poderosa âncora de audiência que se transferiria, posteriormente, para os canais do cabo com a expressividade que hoje conhecemos.

Acontece que estes formatos não são propriamente uma invenção da TV privada. A RTP2 já transmitia um debate intitulado "Estádio" que haveria depois de dar lugar ao "Jogo falado" que seria, à segunda-feira à noite, um complemento do programa "Domingo desportivo", um programa de reportagens onde se noticiavam os acontecimentos de desporto do fim de semana. Falava-se calorosamente de futebol, mas não com o descontrolo verbal que veio a tomar conta de alguns plateaux.

Encontrando aqui uma fórmula eficaz de captar audiências, os média têm alargado substancialmente o espaço dado ao futebol, transmitindo em direto conferências de Imprensa de treinadores, estendendo acriticamente o microfone aos dirigentes dos principais clubes e abrindo a sua antena muitas horas antes de um jogo apenas para ir adensando expectativas. E polémica. Cedendo o espaço editorial aos atores do desporto sem fazer qualquer seleção daquilo que é dito, os jornalistas têm renunciado àquilo que os distingue: escolher o que é relevante e silenciar aquilo que não reúne qualquer interesse público. E é isso que é urgente reconquistar.

Na sequência das recentes declarações do presidente do Sporting, o Sindicato de Jornalistas veio apelar a todos os órgãos de Comunicação Social para que as respetivas direções se reúnam numa resposta coletiva. É isso que urge fazer: enfrentar todas as declarações que ponham em causa o jornalismo. Porque este tipo de atitude é um enorme perigo para a democracia. O futebol será sempre um campo a que os média noticiosos devem prestar atenção. Porque reúne um manifesto interesse público. No entanto, as regras do jogo serão sempre traçadas nas redações dos média. Nos clubes, o jogo é outro.

PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO