Opinião

O Norte, a coesão territorial e os média

O Norte, a coesão territorial e os média

O país que somos não está refletido nos média. Por várias razões. Porque os grupos mediáticos estão imersos numa crise financeira que lhes subtrai importantes recursos (para ir ao fim da rua ou ao fim do Mundo).

Porque Lisboa continua a reivindicar uma persistente herança centralista. Porque há um certo modo de olhar a atualidade que se reproduz acriticamente. É preciso criar um contraciclo. A partir do Norte. Em benefício da coesão territorial de um Portugal assimétrico.

A Região Norte, com os seus 86 municípios e 54 cidades, alberga 3,6 milhões de pessoas, correspondentes a 35% da população portuguesa. As empresas da região produzem cerca de 30% do PIB nacional, apresentando a particularidade de serem mais exportadoras do que importadoras. O Norte vale 40% das exportações nacionais e apenas 24% das importações, o que diz muito do valor que acrescenta à economia nacional. Se adicionarmos o contributo dos principais polos da Região Centro, como Aveiro, Viseu e Coimbra, percebemos que neste terço de país se concentra praticamente metade da economia nacional.

Quem nunca perdeu o norte, saberá que a região não tem grande espaço nos média de expressão nacional. Porque as redações dos principais órgãos de comunicação estão em Lisboa e isso influencia a seleção dos temas e das fontes. Exceção para o "Jornal de Notícias" que tem a sua Redação principal no Porto e para a RTP que, a partir do Centro de Produção do Norte (CPN), emite alguns programas da RTP1, RTP2, RTP3 e RTP Internacional. Poderemos elogiar a perseverança do JN que, desde a sua fundação em 1888, insiste em fazer um jornal para o país a partir do Norte, bem como a opção do operador público de televisão em descentralizar as suas emissões. É melhor olhar para estes exemplos como um percurso que precisa de ser fortalecido.

Como navio-almirante da Global Media, o JN tem de constituir uma aposta inequívoca de quem gere o grupo. Estamos perante um título distintivo que, na sua raiz identitária, encontra nas regiões um dos seus eixos estruturantes, dotando-as de uma projeção nacional que os portugueses apreciam.

Por seu lado, o CPN da RTP não pode ser visto como um favor ou uma cedência do poder central da capital. É um direito, que deve ser equacionado não contra Lisboa, mas a favor do norte e do país. Enquanto serviço público de média, a RTP tem a obrigação de fortalecer o Centro de Produção a Norte. Sob pena de falhar um dos mais críticos princípios da coesão: a equidade.

*Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho