Opinião

O Papa e os divorciados

O Papa e os divorciados

Ao longo dos anos, o Vaticano nunca se interessou pelos divorciados. Varreu-os para margens discriminatórias, ignorando que, com esse gesto, colocava em causa fundamentos profundos do catolicismo. O Papa Francisco tem uma ideia diferente daquilo que deve ser a Igreja e, no seu ainda curto pontificado, tem procurado andar pelas periferias. Porque sabe que esses lugares assumem cada vez mais centralidade. Principalmente para um catolicismo que precisa urgentemente de chamar quem abandonou com impiedade.

"A Igreja não tem portas fechadas para ninguém". Foi assim que Jorge Bergoglio se referiu, esta quarta-feira, ao modo como os divorciados devem ser tratados pela religião católica, acrescentando que estes não estão, ao contrário do que muitos pensam, "excomungados". O Vaticano deixa, assim, as meias palavras, o discurso nem sim, nem não, para assumir, ao mais alto nível, a integração de todos aqueles que viram o seu casamento chegar ao fim. Trata-se de uma revolução em curso que precisa, no entanto, de fazer o seu caminho no sínodo da família que decorrerá em outubro. Não será propriamente uma empreitada simples, porque, no seu interior, a Igreja é endemicamente conservadora e, nos seus corpos mais tradicionais, as estratégias de reação operam com grande eficácia em zonas invisíveis ou em regiões que permanecem bem longe do escrutínio público.

É verdade que a questão é sensível. O sacramento do matrimónio tem subjacente a si a regra da indissolubilidade. E é aqui que o pensamento mais fundamentalista da Igreja se escuda para excluir do seu seio todos aqueles que ousam viver maritalmente fora desta lógica. Para o catolicismo, não existem uniões de facto, homens e mulheres recasados. Ora, continuar a olhar o mundo a partir desta perspetiva, é assumir uma cegueira em relação àquilo que é hoje a sociedade contemporânea. Excluir os divorciados implica colocar fora de portas uma parte substancial das famílias que hoje são cada vez mais restruturadas, grande parte delas continuando a ter uma fé inquebrável na religião católica. A Igreja não pode assumir tal rigidez. O Papa percebeu isso de forma muito clara. Alguns bispos e padres persistem em continuar agarrados a axiomas descolados da realidade. Fazem mal. Às pessoas e à própria Igreja que pensam defender.

Em várias ocasiões, Francisco manifestou grande preocupação em relação à integração dos divorciados. Em setembro de 2013, em entrevista à revista jesuíta italiana "Civiltà Cattolica", afirmava que "a Igreja é a casa de todos e não uma capela onde só cabe um grupo de pessoas escolhidas", desafiando os católicos a encontrarem um novo equilíbrio. Em junho deste ano, defendeu que, por vezes, "a separação pode ser moralmente necessária quando se trata de proteger o cônjuge mais frágil ou as crianças das feridas mais graves causadas pela intimidação e pela violência, a humilhação e a exploração". Não se usou aqui a palavra "divórcio", mas todos perceberam do que é que se falava. E muito poucos serão aqueles que conseguem contrariar de forma argumentada esta posição.

A Igreja tem uma enorme sorte em ter Bergoglio na cadeira de Pedro. Este Papa lê, como nenhum outro, aquilo que nos estrutura como sociedade. Estes tempos líquidos, de que tão bem fala Zigmunt Bauman, não devem postular uma Igreja dobrada permanentemente às contingências do dia a dia que muitas vezes se circunscrevem a fenómenos que se eclipsam à mesma velocidade com que surgem, mas também não podem ser atormentados por seculares instituições que imobilizam pessoas de boa-fé. O Vaticano, por vezes, tende a integrar-se aqui, teimando em ignorar aquilo que é a essência da vida de milhões de pessoas que procuram ser felizes de forma equilibrada.

Hoje, a Igreja não pode fechar a porta aos divorciados e aos recasados. Se o fizer, está a negar a fé que proclama. O Papa já indicou o caminho a seguir. E nesse trilho está acompanhado por milhões de leigos. O restante clero não pode colocar mais pedras numa via que deve ser aberta a todos. Para que o catolicismo continue a fazer sentido para muitos.