Opinião

O real dos média

Há uma semana interrogava aqui qual é, de facto, o poder dos media na eleição de um presidente, lembrando ser fundamental levar em conta "os contextos, particularmente aqueles que mais parecem estar próximos do inferno, como os que hoje se vivem nos Estados Unidos". Neste tempo, a realidade ultrapassou todas as minhas reservas relativamente aos prognósticos desenhados no campo informativo para as eleições norte-americanas. A nível global, os meios de Comunicação Social expuseram abertamente o seu choque. Deveriam também refletir por que permaneceram neste tempo tão longe da realidade.

"Donald Trump foi eleito o 45.º presidente dos EUA. Estas são palavras que pensávamos nunca escrever", declarava "The Washington Post" no rescaldo dos resultados. "Presidente Donald Trump: três palavras impensáveis", assegurava, por sua vez, "The New York Times" que, em editorial, se interrogava que presidente Trump poderá ser, assegurando que ninguém sabe como vai desempenhar as suas funções, quais são os seus conflitos financeiros e que capacidade terá para tomar decisões racionais. O periódico que apoiou veemente a candidata democrata, à semelhança de mais de 200 outros títulos, tem, porém, uma certeza: Trump é o presidente mais impreparado da história moderna.

O choque dos media norte-americanos tem uma réplica perfeita na Europa. "Um homem perigoso tomou conta da Casa Branca", garantia anteontem "Die Zeit", para quem o atual presidente norte-americano não é amigo da Alemanha e muito menos de Angela Merkel. Sob o título "a noite cai em Washington", o jornal "El País" reconhecia que se abre agora uma oportunidade para os inimigos da democracia, numa época cheia de incertezas. "O impensável só é impensável até que aconteça", escrevia "The Guardian", numa tentativa de fazer cair a normalidade possível sobre um facto que o discurso mediático sempre situou no domínio do inverosímil. "La Stampa" ajudava a entender melhor o que aconteceu: "Milhões de famílias pobres, sem esperança, decidiram expulsar do poder as dinastias". E essa gente não esteve, este tempo, nas notícias da campanha eleitoral mas, como também escrevia o jornal italiano, "O povo da revolta está a bater às nossas portas". Está na hora de ouvir o que ele tem para dizer. Com muita atenção. E isso implica uma profunda alteração dos modos de construção da agenda mediática e do processo de "gatekeeping" que os media adotam, ou seja, é preciso outro jornalismo para falar do Mundo atual.

Embora tidos como contrapoder, a verdade é que os jornalistas se movimentam nas esferas do poder. De um certo poder. Aquele que se abastardou nas instituições/organizações que comandam a vida pública e que procura avidamente constituir-se como fonte de informação de acontecimentos relevantes e de (muitos) outros sem importância alguma. Porque essa notoriedade mediática assegura a perpetuação no poder. Acontece que os cidadãos estão cansados de líderes que vêm afundando os países que comandam num futuro sem esperança. Por isso, não é estranho que sigam quem propõe outra agenda, mais próxima da vida de todos os dias que muitos carregam com demasiado esforço, sentindo que o seu destino é determinado por governos que adotam políticas desligadas daqueles que delas mais necessitam. Está aqui parte do sucesso de Donald Trump.

Na obra "Vie et mort des débats télévisés" publicada em 2002, Sébastien Roquette, um sociólogo desconhecido entre nós, fala do bilhete seletivo que os media impõem a quem fazem entrar nas notícias e nos debates que constroem. Um jornalista não entrevista, por exemplo, um agricultor porque, lembra Rouquette, não sabe o que lhe perguntar. Apenas lhe interessam "fast thinking" ou os chamados "engenheiros sociais", grupos profissionais que se ocupam da dimensão humana cuja força reside em existirem fora dos problemas de que falam. Ora, essas elites, desligadas do Mundo, que se constituem numa confraria que tomou de assalto o espaço mediático, há muito que não falam com os cidadãos. E os cidadãos também já não as querem ouvir. Por isso, fazem escolhas estranhas à luz de um discurso dominante que paralisou os média num real que há muito já não mora nas notícias que constroem.