Opinião

O subterrâneo da política

O subterrâneo da política

A política é, em grande parte, encenação. Que se acentuou com a crescente mediatização de que é alvo. No entanto, há uma dimensão daquilo que acontece que nunca é colocada no palco. Permanece nos bastidores, numa zona blindada do escrutínio público. São conversas e comportamentos que perduram no subterrâneo da política, constituindo pilares daquilo que somos. O ex-presidente brasileiro Fernando Henrique Cardoso publicou agora o primeiro de quatro volumes dos "Diários da Presidência", centrando a narrativa nessa zona de retaguarda, inacessível a quem lá não está. Eis uma obra corajosa que, provavelmente, nenhum governante português ousaria editar.

No Brasil, as relações da Presidência com o Congresso são frequentemente tensas, algo delicado quando se quer aprovar urgentes reformas constitucionais. Mas nunca, até hoje, um presidente arriscara colocar em público o modo como alguns deputados se relacionam com o poder. FHC narra vários encontros com congressistas que, em troca de votos favoráveis, lhe pediam lugares na estrutura pública. Apontam-se nomes e fazem-se denúncias duras. "Claro que na hora de ir embora me pediu que um paraibano fosse nomeado superintendente do Banco do Nordeste". Fala-se do senador Ney Suassuna, do PMDB-PB. O ex-presidente José Sarney, na altura presidente do Senado, é outro dos visados, sendo-lhe apontadas permanentes estratégias políticas de jogo duplo.

Não se pense que o olhar destes diários se dirige apenas para aqueles que se opunham ao PSDB, então no poder. No seu partido e no Governo que formou, o ex-presidente do Brasil encontrou gestos de verdadeira guerrilha. Que se evidenciavam de forma dissimulada, mas eloquente. Muitas vezes esses comportamentos tinham origem na sua equipa. Recorda-se o "amigo" José Serra, então ministro do Planejamento, que optou por não acompanhar a viagem de Fernando Henrique ao Chile onde este iria ser homenageado porque, escreve-se, "não se sente bem vendo homenagens que não sejam a ele". Noutra parte, acrescenta-se que "a desconfiança que Serra tem de quase todo o mundo leva a que jogue de surpresa, e isso não dá bom resultado".

As lutas fratricidas entre ministros eram constantes. FHC relata as disputas entre o ministro das Comunicações Sérgio Motta e o ministro da Administração Luiz Carlos Bresser. Competem para ver quem diz mais disparates, escreve um FHC agastado com tricas. Assumindo um tom mais grave, até porque tutelavam pastas mais pesadas, o ministro da Fazenda Pedro Malan e o ministro do Planejamento José Serra foram sempre burilando acusações mútuas, sem nunca assumirem a autoria das incriminações lançadas para os média. Malan chega a dizer ao presidente da República que Serra era a fonte (não identificada) das notícias negativas que circulavam sobre si. Fernando Henrique procura neutralizar as desconfianças, argumentando que "não podemos governar olhando o jornal o dia inteiro". Para si, o presidente confessa ficar na dúvida se Serra gostaria de substituir Melan. "Às vezes tenho a impressão que sim, embora ele me diga que não".

As relações com os média têm especial relevância. E não são apenas os conteúdos jornalísticos que inquietam os políticos do poder. Há um enorme desassossego em relação às novelas brasileiras, particularmente ao "Rei do gado" que coloca no centro do enredo uma personagem inspirada em José Rainha, então líder do Movimento sem Terra. No Governo segue-se o seriado com atenção. Porque se conhece a força da ficção na construção de quadros de perceção social. Que alteram posicionamentos políticos de uma população de voto muito flutuante.

Este primeiro volume, de quase mil páginas, resulta de um trabalho aturado de Fernando Henrique Cardoso que, no tempo em que ocupou o Planalto, foi gravando as suas impressões sobre os acontecimentos que testemunhava. É um livro polémico, mas que contribui enormemente para perceber o percurso que o Brasil fez até hoje. Portugal bem beneficiaria de um relator assim. Principalmente nestes agitados tempos. Mas só um político frontal, destemido, sem telhados de vidro poderia escrever uma obra assim...

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO