Opinião

Onde tratar um cancro?

Onde tratar um cancro?

A notícia de uma doença oncológica é sempre devastadora. Porque se sente que está ali a exigência de se travar uma dura e persistente batalha pela vida. Espera-se que o doente e aqueles que o sustentam tenham força suficiente para tão grande combate, mas aqui o elemento decisivo é a resposta encontrada no sistema de saúde. As intervenções cirúrgicas e os tratamentos são determinantes num processo que se quer bem sucedido. Em França, a revista "L"Express" abriu o debate acerca dos hospitais mais habilitados para tratar certos cancros.

O dossier é extenso. E polémico. E é agora aberto por Christophe Mariette, um médico francês especialista em cancro digestivo, que analisou a extensa base de dados hospitalar francesa entre 2010 e 2012 à procura de saber se haveria relação entre o número de intervenções de um hospital em determinado cancro e a respetiva taxa de sucesso. Do seu estudo ressalta a conclusão de que, nesse tempo, " 11,9 por cento dos pacientes operados num hospital que realiza menos de 20 intervenções por ano a um dado tumor morrem nos três meses seguintes enquanto nos hospitais que fazem mais de 60 operações por ano esse valor desce para 3,2 por cento". A investigação será apresentada no congresso europeu de oncologia, em outubro, em Copenhaga, mas a edição desta semana de "L"Express" antecipa o trabalho académico e multiplica pontos de vista. Nem sempre coincidentes.

A maioria dos especialistas ouvidos valoriza a correlação entre hospitais e médicos mais treinados em certas intervenções oncológicas e as taxas de sucesso na cura dos doentes, mas também há quem sublinhe o perigo de se seguir uma política demasiado rígida. Desde 2007, existe em França regulamentação que fixa critérios de qualidade impostos aos hospitais e aos clínicos a fim de garantir a igualdade de tratamento a todos os pacientes, impondo-se, por exemplo, a cada estabelecimento hospitalar um número mínimo de operações a determinados cancros a fim de não lhe ser vedada a possibilidade de continuar aí esse trabalho. No entanto, como também se escreve, nem todos os hospitais respeitam à risca as determinações e há quem advogue essa compreensão a fim de não introduzir profundas assimetrias do sistema de saúde.

Todavia, mais do que a organização hospital ou as sensibilidades políticas das regiões, o que deverá prevalecer é o supremo interesse dos doentes. A concentração de cirurgias mais complexas num dado hospital proporciona ao paciente equipas cirúrgicas mais experientes, equipamentos mais evoluídos e um apoio pós-operatório mais treinado. A este nível, parece haver consenso, mas tudo continua ainda numa fase demasiado teórica. Porque essa centralização desenvolve-se de forma lenta, porque a informação sobre os hospitais especializados em determinados cancros é escassa, porque o acesso a esses cuidados de saúde nem sempre é facilitado... Num Mundo ideal, estas questões seriam sempre prioritárias. Porque falamos da vida de pessoas, porque um caso mal intervencionado implica tratamentos suplementares muito dispendiosos, para além de provocar um colossal sofrimento. Há, pelo menos, o mérito de o jornalismo ter colocado esta tematização em debate público. O que pode ser um começo para uma reorganização do tratamento das doenças oncológicas.

Por cá, o caminho a percorrer é ainda mais longo. Antes de se discutir o melhor lugar para tratar uma doença oncológica, a prioridade é saber se a doença existe. Ora, este é um problema que o Sistema Nacional de Saúde não tem sido capaz de resolver ao longo dos anos. Fazer, por exemplo, uma endoscopia num hospital público não é algo acessível num intervalo curto de tempo. E mais difícil ainda é conseguir subvenções para a respetiva sedação. Quem tem uma doença oncológica e procura tratamento no sistema público a pergunta continua ainda a ser quando se consegue começar a resolver o problema. A resposta ao onde pode ser considerada uma exuberância. Infelizmente podemos estar aqui a falar da sobrevivência de um doente. Por isso, é vital que as políticas de saúde priorizem este tópico.

* PROFESSORA ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UNIVERSIDADE DO MINHO