Opinião

Os alunos não são indisciplinados. Estão desinteressados

Os alunos não são indisciplinados. Estão desinteressados

Dizem os estudos que os alunos estão mais indisciplinados. Será assim, certamente. No meu caso, não sinto que isso seja difícil de resolver, nomeadamente nos graus mais avançados. Para mim, a maior dificuldade está em manter os alunos focados nos conteúdos. E interessados na escola.

Dou aulas no Ensino Superior há 25 anos e, nesse tempo, nunca me confrontei com ambientes de indisciplina. Talvez tenha tido sorte com os estudantes com que vou trabalhando ou com as disciplinas que ficam a meu cargo, mas também é um facto que a natural disposição para conversar com o colega do lado constitui um comportamento que se modera nas primeiras aulas e se vai monitorizando ao longo do semestre. No entanto, já não é assim tão simples controlar a atenção dos alunos.

Um bloco de três ou quatro horas semanais não será o melhor modo de estruturar uma unidade curricular (embora haja sempre um intervalo a meio), mas é assim que se organiza grande parte das disciplinas nas nossas universidades, muitas delas ministradas em anfiteatros ou salas com capacidade para receberem uma centena de alunos. Tudo parece errado: o tempo é demasiado longo para uma geração que cresceu numa cultura de zapping e o espaço demasiado amplo para gente que evidencia motivações diferenciadas.

Nestes anos, devo admitir que saio das aulas cada vez mais cansada. Abandonei há muito o território à volta da minha secretária, percorrendo em permanência todo o espaço livre da sala para falar o mais próximo possível de todos a fim de lhes reter a atenção. Por outro lado, sinto-me obrigada a salpicar o que vou dizendo com estímulos de vária ordem para ir reacendendo o foco da aula. Repito muito estas frases: "Posso avançar para outro tópico? Estão todos dentro da minha carruagem?". Ou então, dirigindo-me a alguém em particular: "Noto que se apeou. Estamos aqui parados à sua espera. Isso só tem interesse, se estivermos todos juntos nesta viagem ...". Os estudantes lá vão sorrindo e um ou outro lá vai desligando das suas deambulações para se sintonizar com os conteúdos.

Há, de facto, um ambiente novo na sala de aula. E não é de indisciplina. É de desinteresse e de alheamento, que se manifestam muitas vezes de forma silenciosa. E ali estão os estudantes sintonizados com o seu computador ou telemóvel ou então perdidos nos seus pensamentos. É preciso, pois, revolucionar o nosso ensino: nos tempos escolares, nos conteúdos lecionados e nas estratégias de aprendizagem. A fim de salvar as gerações futuras.

Professora Associada com Agregação da Universidade do Minho