Opinião

Os desafios do Ensino Superior

Os desafios do Ensino Superior

Noticiou a Imprensa que o ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior "vai avançar com uma reforma" nos ensinos universitário e politécnico. Pretende-se introduzir novos conteúdos, outras formas de ensinar e um diferente posicionamento face à investigação e ao mercado de trabalho. As reuniões preparatórias já se iniciaram. Desta vez, com os estudantes. Começar pela base é uma boa e inédita estratégia política, mas há muito para fazer. Haverá coragem e meios para isso?

Não é fácil reformar o Ensino Superior. Reivindicando a sua autonomia, as universidades e institutos politécnicos nem sempre são permeáveis a exigências externas, mesmo quando estas são pertinentes, necessárias e frutuosas. É certo que no início deste século houve a chamada Reforma de Bolonha que reduziu o tempo das licenciaturas, democratizou os mestrados e tornou os doutoramentos mais acessíveis. Mas, olhado de perto, o processo de Bolonha não foi assim tão revolucionário. Mais do que atender às necessidades dos alunos, tendeu-se a privilegiar o interesse dos professores em assegurar para si determinadas unidades curriculares que preservassem a sua influência e progressão na carreira. Por outro lado, o tal ensino focado na aprendizagem tornou-se frequentemente uma promessa por cumprir. Por isso, se o ministro Manuel Heitor quer mesmo reformar o Ensino Superior, não tem aí um trabalho simples, mas há formas de ganhar eficiência.

O apoio dos estudantes é um trunfo essencial. Sendo os principais clientes do Ensino Superior, eles são a maior força de pressão para sustentar e obrigar a implementar mudanças. São também eles quem mais pode escrutinar as alterações feitas. Para isso, há que introduzir outras metodologias para avaliar os professores e as respetivas disciplinas. A atual avaliação é parcial, ineficaz e incapaz de corrigir desvios no ensino-aprendizagem.

Os docentes universitários são igualmente importantes, porque se constituem como os agentes mais ativos na prossecução de qualquer reforma de ensino, mas como convencer os professores a investir na sala de aula, quando estes estão mais preocupados em participar em congressos, escrever artigos científicos e desenvolver projetos de investigação? Como se persuadem os professores a centrar o seu trabalho no ensino, se a sua carreira é avaliada sobretudo pela investigação? Se não se equilibrar a valorização do ensino e da investigação, nenhum ministro conseguirá revolucionar o Ensino Superior. É uma causa perdida.

Manuel Heitor fez também saber que é preciso reforçar a qualidade do corpo docente e rejuvenescer as instituições. São boas intenções políticas que exigem que se abram mais concursos para doutorados e se incentivem os que já estão na carreira a progredir. É fulcral obrigar as universidades a diversificar mais os júris que avaliam e selecionam os candidatos (há uma confraria que se repete em provas e em concursos) e é preciso promover mecanismos que incentivem a progressão efetiva (faz sentido as atualizações salariais estarem congeladas para quem presta provas públicas de agregação?)

O ministro vai continuar a ouvir mais atores do Ensino Superior. Para além de chamar as instituições representativas das universidades e politécnicos, seria produtivo conversar com outras pessoas. Com os estudantes que vão todos os dias às aulas, que fazem testes, trabalhos, projetos e que sentem no seu quotidiano o peso de um ensino desligado de uma realidade para a qual procuram uma formação de qualidade. Com os professores que dão aulas, que se preparam para várias provas públicas, que são obrigados a construir permanentemente um curriculum que privilegia a investigação e que são paralisados por uma máquina burocrática que os retira do centro daquilo que importa fazer. Com os trabalhadores não docentes que estão na primeira linha a empurrar instituições demasiado presas a uma entorpecedora burocracia. São estas pessoas que mais sabem falar do Ensino Superior. Porque o ajudam a construir todos os dias. Muitas vezes em profunda e bem justificada discordância em relação ao atual estado das coisas.