Opinião

Os média dizem o que se passa?

Os média dizem o que se passa?

Quem ontem comprou o jornal "El País" ou abriu o respetivo site, leu um editorial intitulado "As mentiras de Puigdemont". Quem optasse pelo periódico "La Vanguardia" encontrava um editorial com o título "Apelo à serenidade". Um produzido em Madrid, outro em Barcelona, ambos os jornais devem contar aos seus leitores o que se passa. E fazem isso. Mas a partir de um certo ponto de vista. E, por isso, a leitura da realidade é desencontrada.

Espanha está em crise. Os políticos mostram-se à deriva. O poder da rua pode efervescer sem qualquer controlo. Os média do país vizinho concentram-se no que se passa em Barcelona e na reação de Madrid àquilo que a Catalunha decide. Aos poucos, a informação internacional vai despertando para este barril de pólvora que ameaça rebentar em Barcelona. Sigo de perto o que reportam os média espanhóis, encontrando aí retratos pouco coincidentes. Porque cada um deles toma partido da posição política do lugar onde têm as suas redações centrais. Nada que surpreenda, embora, neste caso, alguns periódicos exacerbam aquilo que é a sua liberdade editorial. Porque assumem acriticamente as decisões do poder dominante.

O ensaio de Peter Berger e Thomas Luckman, escrito em 1966, com o título "A construção social da realidade", é uma referência para quem quer perceber os média enquanto lugares de transmissão e (re)construção de conhecimento. Também a obra "Making news. A study in the construction of reality", escrita por Gaye Tuchman, em finais dos anos 70, continua a ser hoje uma base relevante para pensar o jornalismo. Diz-nos a investigadora que as notícias são uma janela sobre o Mundo e essa janela promove sempre um enquadramento. Que pode ser problemático, acrescenta. Por estes dias, tenho pensado muito nestas propostas teóricas ao ler os média espanhóis. Porque sinto um forte grau de reconstrução social da realidade. Será que mentem?, perguntarão aqueles menos familiarizados com o campo do jornalismo. Não propriamente. Apenas escolhem um ângulo para olhar a realidade. E contam-nos o que se passa a partir daí. E isso pode ser perigoso, se não tornarem claro esse posicionamento. O dia de ontem foi paradigmático do que está a acontecer.

Assegurando que, "numa democracia, as autoridades não podem mentir impunemente", os responsáveis de "El País" escreveram um editorial, também traduzido para inglês no respetivo site, onde arrasavam o presidente do Governo da Catalunha. O jornal enuncia oito frases proferidas ontem por Carles Puigdemont que corresponderiam a mentiras. Primeira afirmação: "O Governo foi alvo de um ataque coordenado pelas forças policiais do Ministério do Interior". Escreve o jornal: "Falso: as detenções desta quarta-feira foram executada por ordem de um juiz de instrução de Barcelona". Segunda afirmação: "Procura-se suspender o trabalho do Governo catalão que tem legitimidade democrática". Resposta do editorial: "Falso. Só houve uma intervenção sobre as atividades relacionadas com a realização do referendo secessionista". O tom mantém ao longo dos outros seis pontos.

Com chamada à primeira página, o editorial de "La Vanguardia", num registo menos inflamado, afirma que o Governo central espanhol nunca procurou compreender o que se passava na Catalunha, nem se empenhou em fomentar o diálogo político. Aponta-se aqui o dedo a Madrid em defesa da Catalunha. Na capa, publica-se uma fotografia onde se veem milhares de catalães na rua em protesto contra as operações de busca em dependências do Governo por parte da Guarda Civil.

Serão dias quentes, estes. Espanha atravessa uma fase preocupante. O Governo de Mariano Rajoy, de parto tão árduo, mostra-se inábil para resolver esta guerra que se instalou numa região que Espanha nunca poderá desbaratar. E se ontem a rua se inflamou, tal não se deve ao poder de Carles Puigdemont, mas, sobretudo, à incompetência do primeiro-ministro espanhol para resolver este diferendo. Que deveria ter sido antecipado. Agora será tarde. E as consequências poderão ser imprevisíveis para todos.

*PROF. ASSOCIADA COM AGREGAÇÃO DA UMINHO